O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato derrotado à Presidência da República, desembarcou nos Estados Unidos nesta quarta-feira (28), após deixar a Argentina em um voo privado, com escala no Equador. Horas depois, na Flórida, publicou em redes sociais uma carta com teor golpista em que se apresentava como “presidente eleito do Brasil”. O documento continha acusações de irregularidades na votação e críticas à decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, referente à prorrogação do horário de votação no domingo do segundo turno. A publicação estava com a imagem do brasão da República Velha, sob a denominação Estados Unidos do Brazil (com “z”), modelo em desuso desde 1967.
Em seguida, o parlamentar alterou a autodeclaração para “líder do Brasil” e substituiu a imagem do brasão por uma atual, com “Brasil” com “s”. As alegações sobre o pleito e a indicação de uma oposição exercida a partir do território norte-americano foram mantidas no texto, em que também fez agradecimentos aos presidentes Donald Trump e Javier Milei, alegando perseguição e citando o recolhimento de seus passaportes por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do STF. A viagem ao exterior ocorreu a despeito da ordem do Supremo Tribunal Federal que proibia sua saída do país.
O desembarque nos EUA, pela CNN Brasil
O deslocamento de Brasília até a fronteira argentina é objeto de apuração pela Polícia Federal, que analisa a hipótese de uso de uma aeronave de propriedade do advogado Willer Tomaz.
A respeito do processo eleitoral, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, divulgou nota ressaltando a lisura da votação, a segurança das urnas e a normalidade do pleito. Manifestações do Partido Liberal (PL), por meio da coordenação de campanha e do senador Rogério Marinho (PL-RN), indicaram o reconhecimento dos resultados apurados. Posicionamentos públicos de lideranças partidárias do MDB, PSDB e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, também reforçaram a defesa das instituições e o respeito ao resultado proclamado pelas urnas.
REAÇÃO
Flávio Bolsonaro declarou que pretende se dirigir periodicamente ao público para apresentar uma estratégia de oposição “por todos os meios pacíficos e legítimos para impedir que Lula se consolide um regime ditatorial no Brasil”. O parlamentar fez um apelo às instituições para que “essa sandice” termine, afirmando que o país enfrenta um quadro de “caos jurídico”, corrupção e perseguição política.
A chegada do parlamentar aos Estados Unidos ocorreu em um jato Gulfstream G400 da Baires Fly, empresa de táxi aéreo. A aeronave partiu da Argentina, realizou escala no Equador e pousou em Miami. O deslocamento acompanhado da família ocorreu após a expedição de ordem do Supremo Tribunal Federal (STF) proibindo sua saída do país.
Diferentemente de declarações prestadas por aliados no Brasil, o senador não deixou o território argentino na tarde de terça-feira, mas no final da noite, com registro ao vivo por veículos de imprensa locais. Enquanto autoridades brasileiras e interlocutores do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, afirmavam que a viagem já havia sido concluída, jornalistas argentinos informavam a permanência do parlamentar no país vizinho até a decolagem do Aeroporto Internacional de Iguazú, por volta das 23h, rumo ao Equador.
A Polícia Federal apura o meio utilizado para o deslocamento de Brasília até a divisa com a Argentina, avaliando que a viagem por via terrestre não seria viável no tempo decorrido. Uma das linhas de investigação aponta o uso de uma aeronave vinculada ao advogado Willer Tomaz.
Flávio é objeto de dois procedimentos no Supremo Tribunal Federal. Um apura suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo apostas esportivas na internet. O outro examina o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão. Em gravação de áudio, o parlamentar solicita R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, para a produção do longa-metragem.
Após as declarações sobre a votação, Kassio Nunes Marques divulgou nota pública ressaltando que o processo eleitoral ocorreu com segurança e dentro das normas vigentes. O magistrado mencionou a prorrogação do horário de votação no domingo, medida determinada pelo ministro Cristiano Zanin após solicitações partidárias decorrentes de entraves no transporte público em Salvador e das chuvas em algumas regiões.
Na nota, o presidente do TSE registrou: “No último domingo, foram realizadas as eleições mais inclusivas da história da República brasileira. Mesmo diante da instabilidade na reta final de votação, graças às medidas adotadas e à competência dos técnicos do Tribunal, foi possível avançar com a apuração e entregar um pleito com segurança”. O texto afirma que questionamentos apresentados via processo legal serão analisados, acrescentando que “as Eleições 2026 transcorreram dentro da mais absoluta normalidade e com respeito aos ditames legais e constitucionais”.
O coordenador da campanha do PL, senador Rogério Marinho (PL-RN), afirmou a jornalistas não haver elementos que comprovem irregularidades: “O PL não pode fazer essa afirmação, nem eu posso fazer essa afirmação, porque não há prova nesse sentido”. O partido já havia reconhecido o resultado das urnas na segunda-feira. Siglas como MDB e PSDB também emitiram notas de reprovação à postura do candidato. Em posicionamento oficial, o PSDB declarou: “É incompreensível o comportamento do candidato derrotado à Presidência da República. O exercício da oposição numa democracia é tão relevante quanto o exercício dos próprios governos. E ele deve se dar em território nacional, fiscalizando os atos do governo e cobrando os compromissos por ele assumidos com a população. (…) Tudo isso tem que ser feito dentro das regras da democracia, com respeito às instituições e ao processo eleitoral”.



