Política e economia de Pernambuco e do Nordeste

Política e economia de Pernambuco e do Nordeste

Flávio foge não de uma ditadura, mas de uma democracia em que mais de 59 milhões de brasileiros saíram de casa para votar nele (Foto: Reprodução/Flávio Bolsonaro no Instagram)

A fuga de Flávio: Por que alguns resistem e outros preferem fugir?

Dois dias depois de perder a eleição para a Presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro (PL) deixou o Brasil com familiares. Seu movimento soma-se ao de outros aliados que preferiram fugir do país a continuar aqui suas batalhas, como Eduardo Bolsonaro, Carla Zambelli e Alexandre Ramagem, entre outros.

Flávio foge não de uma ditadura, mas de uma democracia em que mais de 59 milhões de brasileiros saíram de casa para votar nele. E em que seu próprio partido formou a maior bancada na Câmara e no Senado, elegeu um irmão e a madrasta dele como senadores e venceu a eleição para governador em seis estados (além de aliados diretos em outros, como Tarcísio de Freitas, em SP).

Por que essa ala que preferiu sair a ficar demonstra tão pouca resiliência cívica diante das adversidades inerentes à política?…

A cultura da resistência integra o arsenal daqueles que se recusam a se render diante das adversidades, da escassez ou do abandono. Os idosos que acompanhamos indo votar, de andador, em cadeiras de rodas ou em macas, são a tradução viva desse espírito. Para muitos no Brasil e no mundo, resistir é manter-se vivo. Trata-se de uma força que transcende gerações, onde muitos carregam consigo a memória dos que caíram de pé para ensinar aos que vieram depois que resistir e seguir lutando é um ato sagrado de sobrevivência.

Enquanto alguns recuam diante dos primeiros reveses, outros jamais abandonam o campo de batalha. No Nordeste, a epopeia de Canudos é uma das histórias que aprendemos desde o berço.

1896 -1897. 

Uma multidão de homens, mulheres e crianças do campo, pobres e discriminados, enfrentando um poderoso exército, numa guerra onde a fuga nunca chegou a ser uma alternativa. 

“Avança, fraqueza do governo!”, gritavam eles no combate. 

Derrotaram 3 das 4 expedições militares enviadas para acabar com Canudos, numa saga contada até os derradeiros momentos em Os Sertões, de Euclides da Cunha. 

No enfrentamento final, ninguém se rendeu, como diz Euclides da Cunha, num dos parágrafos mais pungentes de nossa literatura (notem na relação dos últimos combatentes entrincheirados que não é de hoje que os idosos figuram na linha de frente da resistência…):

“Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.” 

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Foto de Vandeck Santiago
Vandeck Santiago
Jornalista e escritor