Após o vazamento dos áudios que colocam o senador Flávio Bolsonaro (PL) no centro de uma profunda crise, Raquel Lyra (PSD) enfrenta um dilema estratégico: como impedir que o efeito radioativo da crise contamine seu palanque, sustentado por figuras centrais do bolsonarismo pernambucano.
Enquanto as chamas não diminuem, talvez neste primeiro momento seja conveniente à governadora adotar posicionamentos favoráveis a bandeiras progressistas, como uma forma de diferenciar-se do grupo. E talvez seja inconveniente aparecer em agendas públicas ao lado de integrantes do mesmo grupo, como ocorreu no último dia 9, no Recife, quando dividiu o palco com a deputada federal Clarissa Tércio (PP), que é cotada para a vice de Flávio (a imagem principal da foto é deste evento). É isso que vai acontecer? Não sei, são apenas hipóteses.
Acrescente-se ao pacote radioativo a investigação da PF sobre o senador Ciro Nogueira (PI), acusado de receber mesadas de até R$ 500 mil de Vorcaro. Ciro é o presidente nacional do PP, partido que em Pernambuco – conduzido pelo pré-candidato ao Senado Eduardo da Fonte – apoia a reeleição da governadora.
E ainda falta incluir na lista os bolsonaristas pesos-pesados Gilson Machado (Podemos), o deputado federal André Ferreira (PL) e o pré-candidato ao Senado Anderson Ferreira (PL) – estes ainda não anunciaram quem vão apoiar para o governo do Estado, mas a inclinação histórica e eleitoral é para o palanque de Raquel.
É muita gente influente para passar despercebida. Clarissa Tércio foi a segunda deputada federal mais votada em Pernambuco em 2022. Mendonça Filho (PL) está em seu 3º mandato como deputado federal, é um nome respeitado no Congresso e já foi governador de Pernambuco e ministro da Educação. André Ferreira foi o deputado federal mais votado do estado na última eleição. O coronel Meira é uma das principais vozes da Segurança Pública no Congresso. Pastor Eurico é um dos nomes de maior projeção da bancada evangélica na Câmara. E o também deputado federal Fernando Rodolfo é presidente da Federação Renovação Solidária (PRD-Solidariedade) e político com forte atuação no interior, sobretudo no Agreste.
Mesmo que se queira, não dá para “esconder” no palanque tanta gente importante. O que faz surgir uma indagação: como Raquel pretende conjugar esse exército bolsonarista com o desejo de atrair o presidente Lula para o seu palanque? Para a governadora, obviamente está fora de cogitação abrir mão de exército tão poderoso. Ao mesmo tempo, presença tão expressiva do bolsonarismo torna o cenário de convivência com o Lula inimaginável (a não ser que o acordo desejado seja o da ausência física do presidente em Pernambuco durante as eleições, aí é outra coisa – ainda um cenário complicado, mas pelo menos dá para se imaginar).
Vai ser possível conciliar o inconciliável?… Dificilmente, creio eu. Mas o pragmatismo eleitoral vislumbra frestas que nenhum de nós, meros mortais, consegue enxergar.



