Política e economia de Pernambuco e do Nordeste

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Do total de integrantes da comunidade acadêmica alvos do regime militar, 132 foram presos ou detidos e 6 estudantes foram assassinados (Imagem: Arte digital (IA) sobre foto da Reitoria da Universidade)

Comissão da Verdade da UFPE identifica 649 professores, estudantes e técnicos vítimas da ditadura

No próximo dia 31 de março, data que marca o golpe militar de 1964, a Comissão da Verdade, Memória e Reparação da UFPE apresentará os resultados parciais de um trabalho histórico de investigação. O evento, intitulado “A UFPE e o compromisso com as memórias”, ocorrerá a partir das 9h, no Auditório João Alfredo, na Reitoria, e detalhará como o regime autoritário operou dentro da instituição.

Pelo levantamento realizado de junho de 2025 até agora, pelo menos 649 professores, estudantes e técnicos vinculados à Universidade foram alvo de práticas autoritárias do regime militar. As ações iam desde pedidos de informação sobre envolvimentos com atividades “subversivas” a cancelamentos de bolsas, desligamento de curso e demissões. Destes, 132 foram presos ou detidos e pelo menos seis estudantes foram mortos pela repressão. O evento permitirá detalhar esses dados e anunciar as próximas etapas da reconstrução histórica do período entre 1964 e 1985.

A mesa de abertura contará com o reitor Alfredo Gomes, o vice-reitor Moacyr Araújo, o presidente da Comissão, professor Bruno Kawai (História), a professora Socorro Ferraz (Comissão Estadual), a professora Márcia Ângela da Silva Aguiar (Fundaj), o escritor Sidney Rocha (Arquivo Público) e a ativista Amparo Araújo. Também estarão presentes familiares e vítimas, como o advogado Marcelo Santa Cruz, que foi expulso do curso de Direito da UFPE e hoje retorna à instituição como integrante da Comissão.

Durante a solenidade, a importância do direito fundamental à memória será discutida na palestra “Universidade, Memória e Reparação”, ministrada pela professora Ana Paula Brito, do Departamento de Antropologia, que também integra a Comissão.

Como parte da programação, sob a responsabilidade dos professores Soraia de Carvalho e José Marcelo Ferreira Filho, serão remontadas exposições organizadas pelo Nudoc: “Lutas de Classes sob a ditadura de 1964-1985” e “Tecendo memórias e lutas”, em torno da memória de Soledad Barret e Padre Henrique, assassinados por motivos políticos.

Também será lançado um conjunto de vídeos de três minutos que recuperam a história dos estudantes da UFPE assassinados pela repressão. O material, produzido por alunos da disciplina “Jornalismo, Memória e Verdade” com o Laboratório de Imagem e Som (LIS), será exibido como interprograma na TVU às 18h do mesmo dia. Além disso, 18 trabalhos produzidos por estudantes de jornalismo, orientados pelas professoras Paula Reis e Yvana Fechine, serão disponibilizados no site da Comissão.

O envolvimento dos estudantes é uma particularidade central do trabalho. Todo o levantamento de dados conta com estudantes voluntários e bolsistas, acompanhados pela servidora Roberta Lira e sob a supervisão dos professores e especialistas. Neste semestre, o professor José Marcelo Ferreira Filho também ministra a disciplina “Prática de pesquisa histórica” associada ao esforço de sistematização dos dados da Comissão.

JOÃO ALFREDO

A realização do evento no Auditório João Alfredo, no prédio da Reitoria (Av. Prof. Moraes Rego, 1235 – Cidade Universitária), carrega um forte simbolismo. João Alfredo Costa Lima, reitor da então Universidade do Recife (atual UFPE), foi também uma vítima da repressão que se instalou no Brasil, resultando na prisão de intelectuais e figuras públicas da época. Em meio às pressões dos militares e de opositores que o acusavam de abrigar “comunistas” na Universidade, ele acabou renunciando ao cargo em junho de 1964, após cinco anos de gestão.

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Foto de Vandeck Santiago
Vandeck Santiago
Jornalista e escritor