O prefeito João Campos (PSB) e a governadora Raquel Lyra (PSD) travaram neste carnaval uma “batalha de conteúdos” nas redes sociais. Pode até ser que, no futuro, vejamos isso como o marco de uma nova era na política, a era da autonarrativa.
Goste-se ou não da nova realidade, quem observá-la com aquele olhar de soslaio de Capitu vai ficar para trás.

Goste-se ou não do prefeito João Campos (PSB), sua comunicação tornou-se exemplo no país.
Goste-se ou não da governadora Raquel Lyra (PSD), o fato é que os mentores de sua comunicação resolveram seguir a mesma trilha. Desde o ano passado ela tem aparecido em posição desfavorável nas pesquisas, mas, se tivesse seguido a comunicação tradicional, nada indica que a situação estaria melhor.
Quando comecei no jornalismo, lá na época das caravelas, a base da comunicação dos gestores públicos era a validação de terceiros. Os chefes do Executivo dependiam do jornal, da TV ou do rádio para que “falassem sobre eles”. Era uma espécie de intermediação que funcionava como um filtro de credibilidade.
Das caravelas até um dia desses, a base da reputação dos gestores era “que os outros falem sobre você”. As ferramentas digitais fizeram uma alteração na frase, pequena no tamanho mas gigante no sentido. Ficou assim: “Fale você sobre você mesmo”. Ou seja: “Shoot the messenger”.
Com a comunicação direta com o público, os políticos criaram sua própria narrativa, prática que “vacina” os seus seguidores contra o que os opositores falam deles. (A transformação acontece em meio ao enfraquecimento dos meios tradicionais, que continuam tendo seu valor, e mais valor terão se conseguirem investir na credibilidade. A credibilidade é a kriptonita que tem o poder de furar a armadura da era da autonarrativa. Mas isso é outra história, que não vamos tratar aqui, porque esse artigo já está com teoria demais…).
Curioso notar que “o meio é a mensagem”, famosa frase de McLuhan, da época das viagens à Lua, não foi sepultada. Adaptou-se. O “meio” são as redes sociais, mas nelas o político tem um protagonismo e uma autonomia que nem de longe possuía antigamente. No entanto, para que a “mensagem” consiga engajamento e repercussão, o político precisa aceitar a lógica do ser supremo do “meio”: o algoritmo.
O fato é que, se você é político e sua tática é chamar o adversário de “Tiktoker”, sua caravela não vai conseguir acompanhar o barco a motor que está vindo a toda velocidade.



