O vídeo abaixo, de 24 de maio de 2019, possui uma particularidade histórica: registrou a primeira visita do então presidente Jair Bolsonaro ao Nordeste, em Petrolina, e selou a aproximação do bolsonarismo com o grupo político da família Coelho. No evento, Miguel Coelho (na época prefeito, sem partido) fez uma enfática defesa de Bolsonaro. Além de chamá-lo de “iluminado”, contestou a tese de que o Nordeste o rejeitava.
“Toda vez que o senhor vier ao Nordeste, saiba que pode parar em Petrolina. Aqui o senhor tem amigo, aqui o senhor tem aliado. O Nordeste gosta do senhor”, disse Miguel. Neste momento, algumas pessoas na plateia começaram a gritar “Mito! Mito!”, e o presidente levantou-se da cadeira para apertar a mão do prefeito. Três meses antes, o então senador Fernando Bezerra Coelho (MDB) havia se tornado líder do governo Bolsonaro no Senado.
NORDESTE X BOLSONARO
O Nordeste foi a única região onde Bolsonaro perdeu para Fernando Haddad no segundo turno de 2018, obtendo 30,3% dos votos válidos contra 69,7% do petista.
Pesquisa Ibope/CNI divulgada em abril de 2019 mostrava que a região onde o governo Bolsonaro tinha a pior avaliação era o Nordeste: 40% avaliavam como ruim ou péssimo; 58% diziam não confiar nele e 55% desaprovam seu modo de governar.
Em janeiro, durante entrevista ao SBT, Bolsonaro disse esperar que os governadores nordestinos não viessem lhe pedir dinheiro, porque “o presidente deles está em Curitiba” – referindo-se ao ex-presidente Lula, preso na capital paranaense pela Operação Lava Jato.
Na cerimônia em Petrolina, Bolsonaro manteve o tom. Afirmou que o “Brasil é uma só região, um só povo”, e que, naquele momento, “não estava no Nordeste, mas no Brasil”. A frase repercutiu na mídia nacional. “‘Não estou no Nordeste, estou no Brasil’, diz Bolsonaro em Petrolina”, destacou título de matéria do UOL daquele dia.
O presidente esteve em Petrolina para a entrega das chaves de 472 imóveis do Residencial Morada Nova, construído por meio do programa Minha Casa, Minha Vida.
EM 2022, APOIO À REELEIÇÃO DE BOLSONARO
No segundo turno das eleições presidenciais de 2022, Miguel apoiou Bolsonaro. Os dois conversaram por telefone no dia 5 de outubro, ocasião em que fez o anúncio oficial de que apoiaria a reeleição dele. “Tive uma conversa franca com o presidente Bolsonaro e estou convencido que o melhor caminho no 2º turno é sua reeleição. O Brasil já dá demonstrações claras de recuperação econômica e geração de empregos. O presidente Bolsonaro enfrentou muitas dificuldades por conta de uma terrível pandemia, mas agora está sendo capaz de fazer o país crescer acima da média mundial. Por isso, declaro meu voto e apoio à reeleição do presidente Bolsonaro”, disse Miguel na ocasião.
Moral da história: não sei se é do interesse dele, hoje, mas Miguel tem credenciais para buscar o voto alinhado com o bolsonarismo, corrente detentora de um voto “disciplinado”, que costuma marchar no mesmo sentido – “marchou” para Gilson Machado em 2022, garantindo-lhe o 2º lugar, com cerca de 30% dos votos. Não ficou com o mandato porque havia apenas uma vaga em disputa (a eleita foi Teresa Leitão, do PT,com 46%).
Miguel, que é uma das principais lideranças jovens da política pernambucana, ensaiou uma mudança de rota nos últimos anos. Chegou até a ter um breve encontro com Lula, registrado pelas câmeras, no desfile do Galo da Madrugada, no Recife, em 14/02.
Ele postulava uma das duas vagas ao Senado na chapa de João Campos (PSB) – que acabaram ficando com dois candidatos de esquerda, Marília Arraes (PDT) e Humberto Costa (PT). A Miguel restou a reaproximação com Raquel Lyra, que não é bolsonarista, mas cujo palanque pode ser empurrado para a direita pelas forças das circunstâncias.



