Para evitar o risco de ter sua base dividida, o prefeito João Campos (PSB) bancou uma aposta ousada, que nunca foi tentada sequer por Miguel Arraes ou Eduardo Campos: lançar dois candidatos de esquerda em sua chapa majoritária, em vez da tradicional dobradinha esquerda + direita ou centro. Os indicados são Humberto Costa (PT) e Marília Arraes (PDT). O centro fica com o vice, na figura de Carlos Costa, irmão do ministro Silvio Costa Filho (Republicanos).
A decisão teve o aval de Lula e foi divulgada nesta quarta-feira (18). O movimento ocorre no momento em que estava em jogo a possibilidade de Marília e Silvio serem candidatos ao Senado na chapa de Raquel Lyra — o que teria implicações inclusive na participação de Lula na campanha em Pernambuco, uma vez que o ministro e a ex-deputada estão engajados na reeleição do presidente.
O lance inesperado de João Campos empurra Raquel Lyra para a direita/centro-direita. A governadora, agora, terá de compor sua chapa com nomes destas forças. A movimentação elimina (de forma concreta e não retórica) qualquer possibilidade de Lula ter dois palanques em Pernambuco.
VITÓRIA DE MARÍLIA
Pelo menos de acordo com as informações conhecidas até agora, Marília Arraes sai desse processo como a grande vitoriosa: conseguiu a vaga literalmente na garra. Seu nome apareceu na disputa depois de todos os demais pré-candidatos; no início, ela sequer era incluída nas pesquisas, e foi a partir do seu grito de guerra de que seria candidata em qualquer cenário que tudo começou a mudar. Na corrida, Marília superou obstáculos que pareciam intransponíveis, como a resistência a dois nomes de esquerda na chapa e o próprio parentesco com João. Este blogueiro mesmo queimou a língua em comentário anterior, no qual não via possibilidades de ela entrar na chapa majoritária — política, no entanto, é circunstância, e ela chegou aonde queria. Outro fator é que o palanque majoritário não tinha uma mulher e agora tem.
Para Humberto Costa, a decisão não trouxe o quadro ideal, que seria figurar como o único nome da esquerda. É de se supor que haverá ranger de dentes. Humberto não estaria no ato de oficialização da chapa, que estava marcado para esta quinta (19) e foi adiado. Sua assessoria informou que ele cumprirá agenda no interior, marcada previamente. Vale lembrar que Pernambuco nunca elegeu dois nomes de esquerda para o Senado na mesma eleição, o que não quer dizer que isso nunca ocorrerá. O tempo dirá.
QUEM SAIU PERDENDO
A situação chamuscou o deputado federal Eduardo da Fonte (PP). Ele começou como provável candidato ao Senado no palanque de Raquel Lyra, depois foi cotado na chapa de João Campos e, agora, terá de recalcular a rota para viabilizar sua candidatura, já que não está em nenhum dos dois grupos majoritários.
Miguel Coelho também sai do processo em condições desfavoráveis. Na noite dessa agitada quarta-feira, ele oficializou seu apoio a Raquel Lyra, por cujo palanque pretende candidatar-se ao Senado. Após três anos de intensa movimentação para tentar criar um novo caminho, ao lado de João Campos, o ex-prefeito de Petrolina acabou no mesmo lugar que estava no segundo turno de 2022: apoiando Raquel. Alvo de investigação da Polícia Federal, Miguel Coelho terá fortes desafios pela frente, mas o grupo Coelho é forte e tem peso para buscar protagonismos.
O ritmo das mudanças, porém, está acelerado. Convém aguardar os próximos lances para termos maior clareza de um quadro que ainda pode reservar surpresas.



