Política e economia de Pernambuco e do Nordeste

Política e economia de Pernambuco e do Nordeste

Ato bolsonarista na comemoração do 7 de Setembro de 2025, na Av. Paulista, em 2025 (Foto: Reprodução)

Estreia não foi boa, mas Copa de 2026 está devolvendo o verde e amarelo a todos os brasileiros 

Por Vanilson Oliveira, do Correio Braziliense

A camisa amarela da Seleção Brasileira voltou com força às ruas, vitrines, bares e academias. Em ano de Copa do Mundo, a cena parece corriqueira. Mas, no Brasil de 2026, ela carrega um significado que vai muito além do futebol.

Em 2022, o verde e amarelo se tornaram símbolos tão associados ao bolsonarismo que parte dos brasileiros evitava vestir as cores da Seleção por receio de ser identificada politicamente. Quatro anos depois, o torneio mundial impulsiona o retorno dessas cores ao espaço público e reacende o debate sobre a identidade nacional, agora em um cenário menos marcado pela exclusividade política.

Quem antes temia ser confundido nas ruas está deixando o medo de lado para torcer pelo Brasil. Uma pesquisa do Instituto Locomotiva, realizada entre 2 e 8 de junho de 2026 com 1.030 entrevistados, mostra que 67% dos brasileiros estão empolgados com a Copa do Mundo e 63% demonstram entusiasmo específico com a Seleção.

O levantamento aponta ainda que:

  • 86% dos entrevistados pretendem acompanhar os jogos;
  • 52% acreditam que o Brasil conquistará o hexacampeonato mundial.

Esses números reforçam a força do futebol como um dos principais pilares da identidade nacional. Eles ajudam a explicar por que a camisa da Seleção continua sendo um ativo tão valioso na disputa narrativa de um país historicamente acostumado a expressar seu sentimento de pertencimento por meio do esporte.

A RAIZ HISTÓRICA DA DISPUTA PELOS SÍMBOLOS DA PÁTRIA

Para o cientista político Rudá Ricci, a associação entre patriotismo e símbolos nacionais não é um fenômeno recente. Segundo ele, a disputa pela representação da identidade acompanha o país desde os primeiros anos da República. “O nacionalismo no Brasil, historicamente, está relacionado com esporte e cultura, e não com os símbolos da pátria”, afirma Ricci.

O pesquisador lembra que diferentes grupos políticos buscaram, ao longo da história, definir quais personagens, valores e imagens representariam o país. Ricci cita como exemplo a disputa simbólica travada entre Floriano Peixoto e Deodoro da Fonseca sobre qual figura deveria personificar a identidade nacional brasileira na transição monárquica.

Ele explica que a tentativa de vincular o patriotismo estritamente à estrutura política do Estado tem raízes profundas nos setores conservadores. “Essa ideia de patriotismo ligada à estrutura política e à unidade nacional sempre foi da direita”, observa. Ao longo dos últimos anos, o bolsonarismo intensificou essa estratégia ao incorporar a bandeira nacional e a camisa da Seleção em manifestações, campanhas eleitorais e mobilizações de rua.

O FIM DO MONOPÓLIO DO VERDE-AMARELO

Se a polarização recente ajudou a privatizar a camisa da Seleção, a Copa de 2026 parece estar produzindo o movimento inverso. Na avaliação de especialistas ouvidos pelo Correio, o Mundial ocorre justamente em um momento em que a exclusividade construída pela direita sobre as cores nacionais começa a apresentar sinais de desgaste.

Para o professor de marketing político da Fundação Getulio Vargas (FGV), João Ricardo Mata, a melhor forma de compreender esse fenômeno é observar os símbolos nacionais como marcas em disputa no mercado.

“Ninguém é proprietário da marca ‘Símbolo Nacional’, mas podemos usar a metáfora de que, embora não tenha um dono, esse território pode ser alugado. O fato é que, em 2022, o bolsonarismo tinha o monopólio desse aluguel. Ou seja, o verde-amarelo estava ocupado por eles. Em 2026, esse monopólio começou a ser enfraquecido e agora temos uma disputa aberta para esse posicionamento”, analisa Mata.

As movimentações geopolíticas recentes também mexeram com o tabuleiro simbólico. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao rivalizar com medidas econômicas protecionistas adotadas pelo governo do presidente norte-americano Donald Trump, acabou ganhando espaço no discurso de defesa da soberania nacional.

Para João Ricardo Mata, houve uma desocupação de espaço por parte da própria oposição: “Não foi a esquerda ou o governo que tomou essa bandeira, foi o grupo bolsonarista que desocupou esse espaço territorial que era um aluguel dominante deles. Agora eles andam abraçados com as bandeiras americanas e isso tem um peso e um preço a se pagar”, ressalta o professor da FGV.

Na visão do professor de ensino médio Felipe Di Castro, a incorporação da bandeira e da camisa pela direita alterou temporariamente a percepção popular de forma nociva. “A camisa da Seleção e a bandeira, infelizmente, foram sequestradas pelo bolsonarismo nos últimos anos”, declara.

Di Castro aponta ainda uma contradição no patriotismo estético das redes sociais que ignora a própria produção cultural do país. “Não se deve utilizar símbolos que representam uma nação enquanto se nega elementos centrais da própria cultura nacional. Um exemplo é o Oscar. Concorremos duas vezes nos últimos dois anos e vemos os ‘patriotas’ torcendo publicamente contra o filme brasileiro”, conclui.

Compartilhar: 

Foto de Vandeck Santiago
Vandeck Santiago
Jornalista e escritor