É ingênua a expectativa de alguns setores aliados do presidente Lula de que a governadora reeleita Raquel Lyra (PSD) possa vir a apoiá-lo no segundo turno.
Trata-se de uma conta simples de matemática eleitoral: com o apoio dos bolsonaristas no estado, ela começa a disputa já com a vantagem de 25% a 30% dos votos, que é o percentual que o bolsonarismo tem hoje em Pernambuco. Numa analogia com o futebol, é como iniciar uma partida já vencendo por 2 a 0.
O adversário precisa correr atrás do prejuízo para disputar o eleitorado restante. E se a governadora penetra em parcelas que tradicionalmente votariam no campo adversário, como aconteceu agora em 2026, com a conquista de apoios de nomes do PT, a vitória fica praticamente encaminhada.
Se Raquel declarar apoio a Lula, perde essa vantagem, porque o eleitorado bolsonarista se afastaria dela.
A estratégia de não definir um palanque nacional — e, com isso, capturar simpatias tanto de bolsonaristas quanto de parcelas do eleitorado de esquerda — foi o pilar de sua reeleição em 2026. Ela conseguiu reunir em torno de si toda a direita e setores petistas pragmaticamente alinhados à sua candidatura.
O mesmo trunfo será fundamental nas próximas etapas do seu grupo político: na disputa pela Prefeitura do Recife, em 2028, e na consolidação da sua própria sucessão no Palácio do Campo das Princesas, em 2030.
Desde que não haja reação negativa do eleitorado (como não houve em 2022 nem agora em 2026), esse apartidarismo nacional do ponto de vista eleitoral é engenhoso e eficiente. Pode ser criticado politicamente, mas a prática já provou sua eficácia em duas campanhas vitoriosas para o Executivo estadual.
Com essa tática, nas condições atuais, Raquel já entra ganhando o jogo por 2×0. Como esperar que ela abra mão de um mecanismo que lhe confere tamanha vantagem?
Acreditar que discursos de apelo ideológico ou alertas sobre “o avanço do bolsonarismo” farão Raquel desfazer-se do seu valioso trunfo eleitoral é ingenuidade, prática que costuma cobrar seu preço em derrotas.



