Imagine que, por uma dessas surpresas da tecnologia, você voltasse no tempo, se deparasse com os líderes que marcaram a história da política pernambucana e lhes perguntasse: “Em quem o senhor vai votar para presidente?”
De Miguel Arraes a Marco Maciel, passando por Nilo Coelho, Fernando Lyra, José Mendonça Bezerra, Joaquim Francisco e Eduardo Campos — para citar apenas os já falecidos —, é provável que todos sorrissem de forma condescendente diante da pergunta mais óbvia que já haviam escutado. A tradição pernambucana sempre foi marcada por lideranças com posições bem definidas e dispostas a pagar o preço político cobrado por suas escolhas.
A governadora e candidata à reeleição Raquel Lyra (PSD) apresenta-se hoje fora desse padrão. A ideia aqui não é julgar a sua opção, mas analisá-la à luz da história política do estado.
A postura de Raquel não se limita à negativa de revelar o voto: chega a evitar opiniões diretas sobre o que pensa a respeito do governo atual e o de anterior, o de Lula e o de Bolsonaro, antagônicos sob qualquer prisma que se observe.
A tática é eficaz? Do ponto de vista eleitoral, até agora sim. Funcionou no segundo turno de 2022 e vai chegar intacta ao dia da votação de 2026. Não sei se você viu, mas a governadora acaba de publicar uma “colinha” em suas redes sociais sem a indicação de voto para presidente da República (card 2). Temos aí uma espécie de carimbo oficial da posição sustentada durante todo o seu mandato, estruturada para garantir o apoio da extrema direita e de integrantes da esquerda sem comentar nem muito menos tomar partido sobre o que cada um defende. Tudo num arranjo normal de disputa eleitoral, no caso para tentar derrotar o adversário comum – o candidato do PSB ao governo, João Campos (card 3).
A mensagem implícita nessa estratégia não é a do “nem Flávio Bolsonaro nem Lula”. Na prática, ao colocar na linha de frente a ideia de que a disputa nacional é secundária, ela sinaliza para a posição de “tanto faz um quanto o outro”, “tanto faz Flávio Bolsonaro quanto Lula”. Talvez integrantes da extrema direita e da esquerda que compõem o palanque da governadora queiram ver de outra forma, mas esta é a mensagem subliminar em uma opção que prefere não se posicionar sobre projetos antagônicos para o país: “Tanto faz um quanto o outro”, “Tanto faz Flávio Bolsonaro quanto Lula”.
Imagine perguntar sobre isso a qualquer um dos líderes da galeria acima… Se conheço bem a trajetória de cada um, creio que pelo menos um deles era capaz de responder assim: “Pernambuco não é terra do ‘tanto faz’”…
Sim, é verdade que o caminho adotado hoje pela governadora não significa que ela vá segui-lo pela vida inteira. Ela foi deputada (pelo PSB) e prefeita (pelo PSDB) trilhando rotas diferentes e pode ser que, amanhã, passe a seguir outras. Muitas vezes são as conveniências que ditam nossas caminhadas.



