A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) concedeu a diplomação póstuma no curso de economia a Stuart Angel, integrante do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8). Preso, torturado, morto e dado como desaparecido em 1971, aos 25 anos, o estudante teve a conclusão do curso formalizada 55 anos após ter a trajetória interrompida.
A cerimônia de entrega do diploma de bacharel em ciências econômicas a Stuart Edgard Angel Jones ocorreu na terça-feira (7), no Salão Dourado do campus da Praia Vermelha, na zona sul do Rio de Janeiro.
O pedido ao reitor Roberto Medronho resultou de iniciativa da jornalista Hildegard Angel, irmã do homenageado, e do economista Lucas Duda, ex-membro do Centro Acadêmico Stuart Angel (CASA), do Instituto de Economia da UFRJ.
Conforme o relato de Duda, a proposta surgiu no ano passado, quando Hildegard e Samuel Reis, amigo de Stuart, procuraram o Centro Acadêmico para organizar uma homenagem na data de 14 de maio, com a presença de estudantes, familiares e conhecidos. Naquela ocasião, assumiu-se o compromisso de pleitear o diploma, estendendo a promessa a antigos companheiros de militância e a Sônia Moraes, esposa de Stuart, também morta pelo regime militar.
“Um tipo de reparação histórica do Estado que tirou a vida do Stuart e agora entrega uma profissão para ele entre aspas”, disse ela. “Nosso compromisso geral é manter vivo o legado do Stuart para que nos próximos 55 anos, a gente continue lembrando da história dele e o que ele representa para a história do nosso país e tentar motivar as pessoas e os alunos, principalmente os calouros, os mais novos que estão entrando agora”, completou.
Para Hildegard Angel, a homenagem é uma vitória da “memória brasileira” e da resistência contra a ditadura. “São várias pitadas de vitórias e essa é uma pitada bem substancial ao longo desse ativismo para manter viva a memória brasileira dos nossos heróis da resistência, dos que lutaram, e ainda se dedicaram e dos que deram suas vidas pela liberdade de você poder falar, pensar e agir. Ter projetos para o nosso país e querer uma sociedade mais justa sem essas enormes agudas diferenças sociais”, afirmou.
A jornalista declarou que o engajamento exigia motivação específica. “Essa motivação é tão importante e bonita que mesmo tantos anos depois ela me emociona, porque não é comum, não é usual, causa até estranhamento nos contemporâneos que não conseguem entender como um jovem e tantos outros jovens e também velhos se arriscaram e não se deixaram anular pelo medo”, analisou.
A ação do estado vitimou três integrantes de sua família. Além de Stuart, a estilista Zuzu Angel, sua mãe, morreu após denunciar a morte do filho, além do falecimento de Sônia.
“Outras famílias tiveram mais perdas. Isso tem que ser enaltecido porque um país sem heróis não existe. Precisa da motivação dos seus heróis mortos, precisa ter essas referências para ser grande no sentido de nação”, afirmou.
“Stuart Angel de certa forma representou para muitos e representa aquele período e aquele martírio como se ele tivesse se ofertado para a imolação. Isso é muito forte e não pode ser omitido da nossa história e apagado. Tem que ser mostrado com sua fisionomia verdadeira”, disse.
Sobre a atuação da mãe na busca pelo paradeiro do filho, Hildegard pontuou:
“Ela [a diplomação] mostra a consistência da luta de Zuzu Angel. Resgata esse desejo maternal de proteção aos filhos. Ela foi a essência da missão da maternidade de exigir o corpo de seu filho, já que a morte era confirmada”, concluiu.
O reitor Roberto Medronho destacou a função do ato para os 70 mil estudantes matriculados na instituição.
“É uma forma de lembrar que vivemos este tempo terrível, que não pode mais retornar. Os jovens têm a responsabilidade de não permitir que voltemos a um período tão obscuro da nossa sociedade”, explicou em entrevista à Agência Brasil.
Outras Diplomações
A UFRJ prevê a concessão do título a outros 25 alunos mortos ou desaparecidos. A coordenação dos processos cabe ao professor José Sérgio Leite Lopes, à frente da Comissão de Memória e Verdade da universidade. O calendário depende da tramitação interna, com estimativa para agosto.
Entre os listados, três já possuíam graduação: Lincoln Bicalho Roque, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) na época de seu assassinato; Raul Amaro Nin, graduado pela PUC-RJ e pesquisador da Engenharia da UFRJ; e Solange Loureiro Gomes, graduada em Medicina na instituição.
“Ela se suicidou por sequelas da prisão e das torturas que sofreu”, disse o professor, acrescentando que ainda está sendo definido, mas é possível que recebam uma medalha póstuma, porque já eram diplomados.
O levantamento dos nomes tomou como base o volume 3 do relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV), documento que reúne dados sobre mais de 400 mortos e desaparecidos, incluindo trabalhadores do campo.
“Nós nos baseamos nas minibiografias que estão na lista da Comissão Nacional da Verdade (CNV), que por sua vez já aproveitou a pesquisa pela comissão de mortos e desaparecidos políticos que é uma comissão anterior desde os anos 90 e a CNV foi em 2014”, informou.
Lista de mortos e desaparecidos em ordem alfabética que também vão ser diplomados:
Adriano Fonseca Fernandes Filho,
Ana Maria Nacinovic,
Antônio de Pádua Costa,
Antônio Teodoro de Castro,
Antônio Sérgio de Matos,
Arildo Airton Valadão,
Áurea Eliza Pereira Valadão,
Ciro Flávio Salazar e Oliveira,
Fernando Augusto da Fonseca,
Flávio Carvalho Molina,
Frederico Eduardo Mayr,
Guilherme Gomes Lund,
Hélio Luiz Navarro,
Jana Moroni Barroso,
José Roberto Spiegner,
Kleber Lemos da Silva,
Lincoln Bicalho Roque,
Luiz Alberto Andrade de Sá e Benevides,
Maria Célia Corrêa,
Maria Regina Lobo Leite Figueiredo,
Mário de Souza Prata,
Paulo Costa Ribeiro Bastos,
Raul Amaro Nin Ferreira,
Solange Lourenço Gomes
Sonia Maria Lopes de Moraes
Com informações da Agência Brasil



