O ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (Republicanos), afirmou em entrevista a O TEMPO ter sido responsável pelo fortalecimento da direita no Brasil, a partir do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), em 2016, processo que conduziu quando comandava a Casa. “Se eu não tivesse feito o impeachment, não teria existido (Jair) Bolsonaro presidente da República, e nenhum desses expoentes da direita que aí estão teriam hoje alguma proeminência”, disse Cunha.
Bolsonaro foi eleito presidente em 2018, e perdeu a reeleição para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2022. Na avaliação do ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro, que será candidato a vaga na Câmara, agora por Minas Gerais, a retirada do PT do governo em 2016 foi o que ajudou a direita a ganhar terreno no país. “Quem tirou o PT do poder? O único fui eu. Pode falar o que quiser, (…) sem o meu ato, nada teria ocorrido”, afirmou.
Segundo ele, o problema maior de Dilma para a deflagração do impeachment foi que ela perdeu a base no Congresso. “E ali você tinha um momento que a Dilma tinha 5% de apoio popular. A economia estava um desastre, estava uma perda de Produto Interno Bruto do país, estava uma recessão que não tinha tamanho. Aquilo tudo amplificou e deu condição. Ela não tinha a base. Ela perdeu a base dela, o problema maior é que ela perdeu a base no Congresso”, disse ele.
Confira abaixo dois trechos da entrevista, concedida no dia 16 (o texto integral pode ser lido aqui: Impeachment, briga por espaço e volta à política: leia íntegra de):
E o que causou a perda da base de Dilma Rousseff no Congresso?
O que causou a perda da base dela é aquilo que é muito comum no PT: não cumprir compromissos políticos, né? Não adiantava. Ela dava, fingia que dava e não dava. Então ela tratava com os partidos, os espaços e não conseguia cumprir ou não queria cumprir. Então, na verdade, os partidos, naquele momento, as bases, os deputados e senadores não queriam mais o governo do PT.”
O senhor foi uma figura central no impeachment da Dilma, e isso desencadeou depois até uma crise política que terminou ali com vários políticos afetados. Hoje, o senhor se arrepende de algo nesse processo de impeachment? Teria feito algo diferente?
Não. Eu teria feito talvez mais rápido o impeachment. Eu não me arrependo de nada. Mesmo o seguinte: se você me perguntar “se você, sabendo o que aconteceu com você, você mudaria sua posição?”, não, não mudaria, faria a mesma coisa. E agora eu tenho uma coisa importante de se tocar nesse ponto: eu vejo assim muitas contestações, assim de uma parte das pessoas que são, que são de direita e às vezes me contestarem.
Só que tem o seguinte: se eu não tivesse feito o impeachment, não teria existido Bolsonaro presidente da República e nenhum desses expoentes da direita que aí estão, estariam hoje com alguma proeminência. Quando você vê essa turma de hoje, você pega, por exemplo, tem gente que estava de fralda quando eu fiz o impeachment, que hoje brada com muitos, muitos aplausos, com muitas visualizações, como se fosse o grande combatente do PT. Na realidade quem combateu e quem tirou o poder do PT, o único fui eu. Pode falar o que quiser, mas se eu não tivesse feito o impeachment em 2018, não teria tido Bolsonaro presidente da República, não teria tido direita com proeminência, não existiria essas pessoas que estão hoje aqui bradando; tudo é fruto do meu ato. Sem o meu ato nada teria ocorrido.
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TRAJETÓRIA DE EDUARDO CUNHA
Cunha foi deputado federal entre 2003 e 2016 e presidiu a Câmara entre 2015 e 2016. À frente da Casa, aceitou o pedido que deu início ao processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT), em dezembro de 2015.
No ano seguinte, tornou-se alvo da operação Lava Jato, acusado de corrupção em contratos da Petrobras. Foi afastado da presidência da Câmara pelo STF e teve o mandato cassado por quebra de decoro parlamentar.
Preso preventivamente em outubro de 2016, Cunha foi condenado em 2017 a mais de 15 anos de prisão por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Em 2020, passou ao regime domiciliar. Em 2023, o STF anulou a condenação, ao entender que o caso deveria ter tramitado na Justiça Eleitoral.
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