Até hoje, Pernambuco nunca elegeu dois senadores de esquerda na mesma eleição. Na verdade, na eleição para o Senado em Pernambuco os resultados mostram que a direita e o centro são mais fortes que a esquerda. Enquanto a esquerda nunca elegeu dois de uma vez só, a direita e o centro já — em 2002, com Marco Maciel e Sérgio Guerra.
Mas eu tô trazendo esse assunto porque o cenário de 2026 acaba de receber uma proposta de Marília Arraes defendendo duas candidaturas no campo da esquerda: a dela e a de Humberto Costa.
O problema é que uma campanha majoritária é como um navio em alto mar: precisa equilibrar o peso para ficar aprumado. Se ele tiver peso demais de um lado ou do outro, ele aderna — inclina para o lado, e não completa seu curso.
O maior navegador eleitoral e político de Pernambuco, Miguel Arraes, foi quem estabeleceu esse padrão de vitória para o campo progressista no estado: uma composição com hegemonia da esquerda numa aliança com a direita e o centro.
Em 1962, Arraes se elegeu governador tendo como candidato ao Senado o empresário José Ermírio de Moraes, que também venceu. Em 86, repetiu a dose unindo o padre progressista Mansueto de Lavor e o usineiro Antônio Farias. Na época, a palavra “usineiro” era estigmatizada pela esquerda. Houve resistências na campanha, mas Arraes manteve a opção. Os três foram eleitos.
Eduardo Campos foi timoneiro da mesma lógica: em 2010, uniu Humberto Costa, pela esquerda, e Armando Monteiro, pelo centro. Todos se elegeram. Em 2018, Paulo Câmara venceu com a dupla Humberto Costa e Jarbas Vasconcelos. O equilíbrio entre esquerda e direita e centro sempre foi o lastro desse navio vitorioso.
Vejam que tem um componente engenhoso nessa tática: ela divide as forças do adversário e fortalece as suas.
Atualmente, há forças querendo que a governadora Raquel Lyra, um nome de centro, construa um navio semelhante, mas isso parece mais uma especulação de pré-campanha que uma possibilidade concreta.
Agora, Marília Arraes diz que sua candidatura ao Senado não tem volta. Em entrevista, João Campos rejeitou a possibilidade de candidatura avulsa e disse que ninguém é candidato de si mesmo. O recado é bastante claro.
O navio que João Campos está construindo é feito na mesma fábrica que fez os de Arraes e os de Eduardo. Ou seja, é um projeto desenhado para não ter peso excessivo de um lado só.



