Política e economia de Pernambuco e do Nordeste

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Wagner Moura: Prêmio de Melhor Ator no Globo de Ouro

Perguntar não ofende: “O Agente Secreto” e “Ainda Estou Aqui” teriam existido qualquer que fosse o governo?

Do ponto de vista estritamente financeiro, poderiam até ter existido, porque Kleber Mendonça Filho e Walter Salles são diretores com prestígio para captar recursos internacionais e viabilizar uma estrutura financeira própria – como, aliás, ambos fizeram nesses dois filmes. Mas enfrentariam uma ambiência tão hostil de determinados setores do Brasil que duvido que a trajetória dos dois longas fosse a mesma. Não basta dinheiro para se produzir um filme e vê-lo triunfar; o ambiente em que ele é produzido, a reação que desperta, os obstáculos que enfrenta também contam muito. 

Kleber Mendonça Filho: Prêmio de Melhor Filme Estrangeiro

Um exemplo concreto: “Marighella”, lançado em 2019, com direção de Wagner Moura (sim, o mesmo).  O filme teve dinheiro para a produção, possuía um elenco de peso e, assim como os filmes de Kleber e Salles, contava uma história da época da ditadura. 

Mas teve no Brasil a pior ambiência possível. Houve até ameaças de ataque ao set de filmagens, com hora marcada (não aconteceu; Wagner contou depois que a equipe estava disposta a reagir). 

Trâmites burocráticos retardaram o lançamento no país. 

Ataques coordenados rebaixaram a nota média do filme em plataformas como o IMDb, na qual 34 mil votantes deram nota 1. A situação foi tão escandalosa que a plataforma colocou uma mensagem na página de votos do filme afirmando: “Nosso mecanismo de avaliação detectou atividade incomum de votação para este título. Para preservar a confiabilidade do nosso sistema de avaliação, um cálculo alternativo de notas foi aplicado“. A mensagem está lá até hoje. O longa chegou a ter nota média de 4; atualmente está em 7,1. 

O “ambiente de medo” então existente teve impacto sobre a distribuição para exibição (só quem viveu aquele período inicial sabe como o temor era palpável. Após a confirmação do resultado da eleição, em 2018, eu saí da redação onde trabalhava e fui tomar um café com o jornalista Evaldo Costa, no Bairro do Recife. “O clima vai pesar”, eu disse. “A gente vai apanhar no meio da rua”, respondeu ele, com seu habitual ar de profeta. Esse era o clima). 

Em entrevistas, Wagner Moura chegou a dizer que sofreu censura tanto durante a produção quanto na distribuição. 

“Marighella” – baseado no livro homônimo de Mário Margalhães – teve estreia mundial em fevereiro de 2019, no Festival de Berlim, onde foi aclamado pelo público e pela crítica. A exibição ocorreu na programação principal, mas sem concorrer à premiação. Depois, conquistou prêmios em festivais internacionais, mas é plausível supor que o fato de não ter tido um lançamento nesta época em seu país de origem impactou uma eventual campanha para festivais mais importantes e uma distribuição internacional mais ampla. 

Equipe de “Marighella” no Festival de Berlim de 2019: aplausos do público e elogios da crítica. O filme, porém, só conseguiu estrear no Brasil dois anos depois (Foto: Divulgação)

A estreia no Brasil estava prevista para 2019; só aconteceu, porém, dois anos depois, em 4 de novembro de 2021 (aí incluído também o efeito da pandemia de Covid-19). 

No 48º Festival Sesc Melhores Filmes, o longa foi o grande vencedor, com 8 prêmios, incluindo Melhor Filme, Melhor Direção para Wagner Moura e Melhor Ator para Seu Jorge.

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Vandeck Santiago é jornalista e escritor. Trabalhou na VEJA, Folha de S. Paulo e Diario de Pernambuco. Venceu 15 prêmios jornalísticos, entre os quais o Prêmio Esso, o Prêmio Embratel e o Prêmio BNB. É autor de “Pernambuco em chamas – A intervenção dos EUA e o golpe de 1964” (CEPE, 2016) e de “Josué de Castro – o gênio silenciado” (Instituto Maximiano Campos, 2008).