Autor de uma obra já com cerca de 20 títulos, o médico, professor, pesquisador e escritor Luiz Arraes lança nesta quinta-feira (14) dois novos livros: “A minúscula morada do espírito humano”, de contos, e “Bloco de notas – Escrita, a de dentro e a de fora”, com notas, citações, memória e esquecimento. Ambos são publicados pela editora Confraria dos Ventos.
“Uma das coisas que mais chama atenção na escrita condensada e elíptica de Luiz Arraes é a elaboração de quadros. É como um miniaturista, capaz de concentrar em poucos lances dramáticos uma história que parece poder ocupar centenas de páginas”, afirma o crítico literário e professor de literatura brasileira e portuguesa da UFPE, Fábio Andrade, no prefácio de “A minúscula morada do espírito humano”.
Em matéria do Jornal O Poder, Luiz Arraes fala sobre os dois livros. “É uma maneira que eu tenho de escrever os contos. Usar formas elípticas, de maneira quase misteriosa, sem dizer de fato o que aconteceu. Mas o que aconteceu está dito ali, está bem compreendido”, diz ele, referindo-se ao volume de contos.
Já ‘Bloco de Notas – Escrita, a de dentro e a de fora’, explica o autor, são “reflexões feitas ao longo do tempo, que fui anotando, sempre a partir do pensamento de outros autores ou com base em fatos que presenciei ou vivi”, explica o autor.
SE AINDA NÃO SE AGENDOU, AGENDE-SE:
Quando: Hoje (quinta, 14)
Local: Mocó Bistrô
Endereço: Rua das Graças, 178
Horário: 18h
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Confira abaixo um dos contos de “A minúscula morada do espírito humano”, com ilustração de Maurício Arraes (reprodução da Revista Araçá / www.aracarevista.com.br):
CONSENTIMENTO

Meu pai começava a trabalhar cedo. Ele e a minha mãe acordavam na mesma hora como se fosse combinado.
Ela ia para a cozinha preparar seu café e ele ia tomar banho e se arrumar para sair.
Ela lhe servia o café, ele o tomava calado. Em pé junto a ele, minha mãe atenta para ver se faltava algo.
Ele ia embora com a sua pasta, dizendo algo entre os dentes.
Batia a porta com força. Minha mãe abria com cuidado e a fechava com delicadeza, como a consertar uma estupidez, “a ternura é lenta”*.
Em seguida, era a minha vez e a de minha irmã. Preparava nosso café e nos acordava. Tomava conta do que comíamos e em seguida nos levava até a parada de ônibus.
Minha mãe passava o dia em casa, saía para poucas coisas. Fazer compras; gostava de ir no mercado de frutas e verduras e no supermercado. Tinha alguns poucos amigos na rua com quem costumava conversar.
Chegávamos antes do meu pai e íamos direto ao banho e, sem intervalos, mergulhávamos nas tarefas da escola.
Meu pai chegava já escuro, sempre na mesma hora. Calado, ia direto ao banho também e saía já de pijama e robe de chambre. Falava algo com minha mãe, perguntava-lhe pelo dia que passou. Era toda a conversa dos dois.
Ia para a sala ouvir rádio e depois televisão, era quando minha mãe se juntava a ele até a hora do jantar.
A gente pensava que a vida era assim.
Um dia, meu pai chegou com um garoto nos braços de mais ou menos um ano de idade. Trancou-se no quarto com minha mãe e o menino e demorou mais de uma hora lá dentro.
Minha e eu fomos dormir antes da porta abrir-se.
No dia seguinte, no café, minha mãe estava dando de comer ao pequeno e nos apresentou ele como nosso novo irmão. Chamava-se João.
João foi crescendo e logo estava na escola. Ia conosco. Minha irmã sempre cuidadosa com ele.
Meu pai o tratava como a mim e a minha irmã. Com distância e silêncio. A gente pensava que a vida era assim.
Fomos no cinema um domingo à tarde, os cinco.
Minha mãe de braços dados com meu pai e nós a poucos metros atrás, conversando.
Vi como se estivesse filmando um casal passar por nós e a mulher alisar a cabeça de João.
Minha mãe, que nos observava, também viu. Viu também quando a mulher passou por eles e apertou o braço de meu pai com força. Minha mãe olhou para ele com olhos firmes e ele, corado, desajeitado, balançou a cabeça.
Apressamos os passos para pegar um bom lugar no cinema.
*Júlia Panades



