O que vocês acham de “desmonta esquema” ou “atinge” em substituição a “mira”? Soam mais contundentes, não? E permitem escapar da onipresença do “mira”, que todos os concorrentes vão usar.
Quando começou essa avalanche do verbo “mirar” nos títulos jornalísticos?
Não sei exatamente, mas minha suposição (só uma suposição, não se trata de uma pesquisa científica, só uma impressão baseada na minha experiência em redação) é que o termo começou a tornar-se frequente a partir da Lava-Jato.
Façam uma pesquisa em instrumentos de buscas e vocês vão ver a frequência com que a palavra aparece.
Nas 80 fases da Lava-Jato, de 2014 a 2021, o “mira” marcava presença em matérias sobre “contratos de navios”, “apartamentos”, “marqueteiro”, “funcionários de banco”, “Lula”…
Depois, a partir dos estertores da Lava-Jato, os alvos foram mudando.
Curioso observar que uma das mudanças foi com o Sérgio Moro – ele, que antes aparecia nas matérias “mirando”, passou a ser mencionado como “mirado”. Como nestas daqui: “Moro entra na mira das investigações por devassa econômica da Lava-Jato “ (Veja Negócios, Coluna Radar Econômico. 16/03/22), “Projeto da quarentena ‘mira’ Moro, diz Dallagnol” (CNN, 31/07/20), “Na mira do TCU, Moro revela que recebia US$ 45 mil mensais da Alvarez & Marsal” (O Dia, matéria do Estadão Conteúdo, 28/01/22).
Os anos foram passando e a lista de pessoas “na mira”, aumentando: “PF mira celular de Zambelli para apurar acusações de Moro contra Bolsonaro” (UOL, 03/05/2020), “Pacheco mira Bolsonaro e Moro” (Correio Braziliense, 16/11/2023), “PF mira Bolsonaro e filhos reagem com críticas nas redes sociais” (CNN, 18/07/2025).
Enfim, o fato é que o verbo “virar” entronizou-se no vocabulário do jornalismo e é possível, a partir dele, contar a história da ascensão e queda de personagens de destaque da nossa política.
Uma ressalva: Não estou criticando os colegas redatores nem os jornais. O que uns e outros produzem é muito maior do que uma eventual divergência sobre vocabulário jornalístico.
Uma opinião: Penso que o uso indiscriminado do “mira” acaba não dizendo o que quer dizer. O verbo “mirar” sugere que a ação final ainda não foi realizada, está “na mira”, não houve o “disparo”. Ou seja, soa inadequado quando se trata de uma ação já realizada. Dizer, por exemplo, que um esquema fraudulento “está na mira” é diferente de informar que o esquema foi desmontado ou desarticulado. Afirmar que uma determinada quadrilha “está na mira” não é a mesma coisa que noticiar que a quadrilha foi “desarticulada”.