Lancei este livro em 2016. O foco é em Pernambuco e Nordeste. A imagem da foto da capa é de uma passeata noturna de camponeses realizada no Recife, em 2 de junho de 1961. O cartaz de Fidel Castro empunhado pelos manifestantes é de autoria de Abelardo da Hora.
Na época, a ação do governo dos EUA era contra o “perigo comunista” – no Brasil, o primeiro olhar dos EUA, neste sentido, foi para o Nordeste, e em particular, Pernambuco, onde as esquerdas vinham obtendo expressivas vitórias políticas (estavam à frente da Prefeitura do Recife e, no ano seguinte a esta manifestação, ganhariam o governo do estado, com Miguel Arraes). Além disso, havia no campo um movimento social radicalizado, as Ligas Camponesas.
“O Partido Comunista e seus aliados Pró-Castro provavelmente serão capazes de manter o pobre Nordeste rural em agitação”, dizia relatório da CIA de agosto de 1961. A ação dos EUA no Brasil, que cresceu pelo Nordeste em 1961, culminaria no golpe militar de 1964.
COMO O NORDESTE ENTROU NA MAPA DA GUERRA FRIA
Nunca a imprensa internacional escreveu tanto sobre o Nordeste brasileiro quanto no período 1960-1964. Só no The New York Times foram mais de 80 matérias – a maioria delas publicadas com destaque. Quem abriu essa vereda foi Tad Szulc (sim, o próprio), com duas matérias que repercutiram internacionalmente. A primeira, na capa, em 31 de outubro de 1960, dizia no título: “Pobreza do Nordeste do Brasil gera ameaça de revolta”. A segunda, no dia seguinte: “Marxistas estão organizando camponeses no Brasil”.

O presidente John Kennedy recebeu na Casa Branca o superintendente da Sudene, Celso Furtado, em 14 de julho de 1961, e, ao final do encontro declarou, em comunicado: “Nenhuma área, em nosso hemisfério, tem maior e mais urgente necessidade de atenção do que o vasto Nordeste do Brasil” (a frase e o encontro foram notícia no Times no dia seguinte).
Em 13 de abril de1962, preocupado com as eleições que seriam realizadas no Brasil naquele ano, Kennedy assinou com o presidente brasileiro João Goulart, em Washington, o Northeast Agreement (Acordo do Nordeste), que previa liberação de recursos para o Nordeste. “Nunca antes os EUA haviam assinado um acordo diplomático para ajudar o desenvolvimento de uma região em um país”, segundo Donor Lion, diretor da USAID no Nordeste de 1963 a 1966.

Dois irmãos de Kennedy estiveram em Pernambuco: Edward, em 1961, e Robert, em 1965, que protagonizou uma curiosa cena: de terno e gravata, sobre a capota de um automóvel, na frente do prédio da Sudene, no centro do Recife, discursou para o público em inglês…


Trecho do livro sobre a visita de Edward (Ted) Kennedy a Pernambuco: “Domingo, final da tarde, ele desceu de terno, sem gravata, e atravessou a pista acenando às pessoas, que o saudavam. Tinha 29 anos e ainda não havia iniciado sua bem-sucedida carreira política – o que aconteceria no ano seguinte, quando se elegeu senador […]. Ted chegou com uma credencial que abriria portas em qualquer parte do mundo – era enviado do presidente Kennedy, e, se isso parecesse pouco, poderia acrescentar também ‘irmão'”.
Na época, Caruaru contava com grande projeção política, eleitoral, ideológica, econômica e religiosa. Era o segundo colégio eleitoral do Estado, a segunda economia, a segunda Diocese (atrás apenas de Olinda e Recife) e rota de autoridades importantes que visitavam o estado. Além disso, a cidade era palco de uma forte luta ideológica. Havia até denúncias de infiltração comunista na tradicional Feira de Caruaru…
Uma visita do próprio John Kennedy ao Brasil chegou a ser marcada, e a visita ao Nordeste faria parte com destaque da programação – um dos locais cogitados para receber o presidente era Sapé, no interior da Paraíba, que contava com um forte movimento das Ligas Camponesas. A visita foi adiada, e nunca aconteceu: John Kennedy foi assassinado em 22 de novembro de 1963.
TRECHO DO PREFÁCIO DO PROFESSOR PABLO PORFÍRIO, DOUTOR EM HISTÓRIA SOCIAL (UFRJ)
“Este livro é um thriller sobre a Guerra Fria. A narrativa empolgante, por vezes tensa, de Vandeck Santiago apresenta ao grande público as ações e as intervenções dos Estados Unidos no Nordeste do Brasil entre 1961 e 1964. Jornalista dedicado ao estudo das questões políticas deste período e dos seus principais personagens, o autor nos conduz por encontros entre chefes de estados, negociações sobre acordos políticos, reuniões com editores de jornais e revistas, onde o principal assunto era o destino de milhares de pessoas que viviam no ‘Pernambuco em Chamas’.
Santiago foi perspicaz em sua pesquisa. Reuniu documentos oficiais (alguns inéditos), relatos de memória e uma vasta bibliografia para contar como o Nordeste – destaque para Pernambuco – se tornou peça fundamental no tabuleiro de xadrez da Guerra Fria.”



