Política e economia de Pernambuco e do Nordeste

Política e economia de Pernambuco e do Nordeste

"Em nenhum momento eu tirei o meu olhar do olhar dele”, relembra hoje o jornalista Antônio Fraga (Foto: Frame do vídeo)

VÍDEO: ACM irrita-se com pergunta e agride repórter na eleição de 1986

Uma das figuras mais poderosas da República durante décadas, Antônio Carlos Magalhães entrou debaixo de vaias na seção onde iria votar em Salvador, em 15 de novembro de 1986, na primeira eleição direta para governador após a redemocratização do país em 1985. Os eleitores gritavam “Waldir! Waldir! Waldir!”, que era o candidato de oposição, Waldir Pires (PMDB). O seu adversário, apoiado por ACM, era Josaphat Marinho (PFL). 

O repórter Antônio Fraga cobria a eleição para a TV Itapoan. Por acaso, ao chegar em um dos locais de votação, viu o então Ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães, entrar para votar e ser recebido com vaias. Antônio Fraga aproximou-se e fez o que todo repórter faz: perguntou. O assunto a ser abordado estava na cara e nos ouvidos: as vaias. 

ACM irritou-se, criticou o dono da TV Itapoan, Pedro Irujo, mandou o repórter “respeitar o ministro” e o chamou de “F**** da p***”, puxando o microfone. Em seguida, quando Antônio Fraga já se retirava, o chutou. As imagens foram gravadas pela TV Itapoan, em sua maior parte, e algumas cenas laterais pelo cinegrafista da TV Aratu. As imagens originais não se sabe onde estão hoje; mas uma reprodução delas foi preservada, e costuma circular de tempos em tempos na internet (confira no vídeo acima).

Waldir Pires acabou sendo eleito, com cerca de 70% dos votos válidos. No país, o PMDB, partido sucedâneo da legenda de oposição ao regime militar, o MDB, foi o grande vitorioso: venceu 22 das 23 eleições para governador, e conseguiu a maioria absoluta no Senado e na Câmara Federal. Uma vitória tão esmagadora que não precisaria nem fazer coalizão – nunca mais isso aconteceu no parlamento do país. 

ANTÔNIO FRAGA CONTINUA TRABALHANDO EM COMUNICAÇÃO

O episódio revisto 39 anos depois: Antônio Fraga concede entrevista a Mário Kertész

Mas o que aconteceu com Antônio Fraga, o repórter agredido? Em 27/05/2025 ele concedeu entrevista a Mário Kertész, da Rádio Metrópole (BA), contando os detalhes do caso. “Foi talvez o dia mais difícil que eu tenha vivido”, disse ele, que trabalhou na TV Itapoan, depois na TV Aratu e em seguida montou uma empresa de comunicação. Sobre o momento da agressão, Fraga afirmou referindo-se a ACM: “Em nenhum momento eu tirei o meu olhar do olhar dele”.  Veja no carrossel de vídeos postado no início desta matéria trechos da conversa entre os dois.  

ACM: VITÓRIA QUATRO ANOS APÓS AGRESSÃO

Antônio Carlos Magalhães foi eleito governador em primeiro turno na eleição de 1990, quatro anos após o episódio com o repórter Antônio Fraga. Saiu vitorioso também na eleição para Presidente da República: apoiou Fernando Collor, que foi o eleito. 

Em 1994, mais conquistas. ACM fez o sucessor, Paulo Souto; elegeu-se senador (em 1997 tornou-se presidente do Senado) e teve papel de destaque na eleição do novo presidente, Fernando Henrique Cardoso 

Último coronel da política brasileira, ACM morreu em 20 de julho de 2007, aos 79 anos, no Instituto do Coração (InCor). A causa da morte foi a falência múltipla de órgãos resultante de complicações renais e cardíacas. Ao longo de 53 anos de atuação política (começou a carreira como deputado estadual, em 1954), foi governador por três mandatos e senador por dois.

Em torno do seu nome foi criado um movimento, o “Carlismo”. Na política baiana de hoje, há dois nomes de sua família: ACM Neto (UB), ex-prefeito de Salvador e atualmente pré-candidato a governador (e que valoriza o legado do avô, mas rejeita o termo “Carlismo”, que já definiu como “um rótulo incompatível com os dias de hoje”), e o deputado federal Paulo Magalhães (PSD-BA), sobrinho de ACM.

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Vandeck Santiago é jornalista e escritor. Trabalhou na VEJA, Folha de S. Paulo e Diario de Pernambuco. Venceu 15 prêmios jornalísticos, entre os quais o Prêmio Esso, o Prêmio Embratel e o Prêmio BNB. É autor de “Pernambuco em chamas – A intervenção dos EUA e o golpe de 1964” (CEPE, 2016) e de “Josué de Castro – o gênio silenciado” (Instituto Maximiano Campos, 2008).