De todos os produtos atingidos pelo tarifaço, aquele que representa com perfeição o orgulho nacional, aquele que representa com perfeição a defesa do lugar como algo inegociável, aquele que representa com perfeição a simbologia da luta de Davi contra Golias é a cajuína.
Primeiro, porque entre os produtos tarifados, a cajuína é o único que tem o título oficial de Patrimônio Cultural do Brasil, concedido pelo Iphan em maio de 2014. Ou seja, é um produto que tem valor cultural, social e histórico para todos os brasileiros.
Segundo, a cajuína já travou e venceu uma disputa contra uma gigante multinacional de bebidas que ia lançar no Brasil um refrigerante com o nome de Crush Cajuína.
Isso foi em 2011. O assunto teve repercussão nacional. O jornal O Globo, de 22 de julho de 2011, deu matéria com o título: “Coca-Cola lança o Crush Cajuína, refrigerante com sabor de caju”.
Havia aí duas questões que causaram revolta e indignação no Nordeste, onde a cajuína é uma bebida típica, sobretudo no Piauí, Ceará e Maranhão: a apropriação do nome “cajuína” e o uso do termo associado a refrigerante.
Cajuína não tem nada a ver com refrigerante. A cajuína não tem adição de açúcar nem conservantes, não é gaseificada e tem um modo de feitura artesanal. A base da cajuína não é água e açúcar, é suco de caju.
As reações pipocaram em todo o Nordeste. Mas foram maiores no Piauí, praticamente mobilizando todo o estado. A Assembleia Legislativa fez uma audiência pública para debater o assunto. O caso foi bater no Senado Federal, com discurso do então senador Wellington Dias, este mesmo que hoje é ministro do governo Lula. O discurso é do dia 17 de agosto de 2011, ou seja, um mês depois do anúncio do lançamento do Crush Cajuína.
A empresa fabricante da Coca-Cola no Nordeste se pronunciou afirmando que não pretendia registrar a marca Cajuína, e que o uso da palavra seria na designação do sabor, e desta forma o seu uso seria livre. Nada disso arrefeceu a luta.
O final da história é que a empresa acabou desistindo de lançar o Crush Cajuína
Uma luta encabeçada pelo Piauí fez uma gigante multinacional recuar – querem melhor exemplo de luta de Davi contra Golias do que este?…
Em virtude desse caso, o processo que tornava a bebida patrimônio cultural do Brasil ganhou celeridade e foi, enfim, concluído em 2014.
E já que estamos no terreno da simbologia, convém destacar ainda que a cor da cajuína é amarela, um amarelo-âmbar, com tom alaranjado. E também que a bebida já possui até uma espécie de hino, que é a pungente canção de Caetano Veloso intitulada “Cajuína”, composta por ele em 1979, após visita, em Teresina, à casa de Heli da Rocha Nunes, pai do poeta piauiense Torquato Neto, morto tragicamente anos antes. Foi um encontro pontuado pela tristeza, pela cajuína e pelo choro de Caetano, segundo relato do próprio cantor: “Então ficamos só ele e eu na casa. Ele não dizia quase nada. Tirou uma rosa-menina do jardim e me deu. Me mostrou as muitas fotografias de Torquato distribuídas pelas paredes da casa. Serviu cajuína para nós dois. E bebemos lentamente. Durante todo o tempo eu chorava.” No dia seguinte, Caetano – que estava excursionando com um show pelo país – compôs “cajuína”.
Hoje, a cajuína está entre os produtos perecíveis que iam ser exportados e não foram, em razão do tarifaço. No Ceará, para compensar isso, o governo estadual decidiu comprar cajuína para distribuição na merenda escolar, em refeições hospitalares e em programas de combate à insegurança alimentar.
Se a gente quiser um produto que seja símbolo dessa luta do tarifaço, não há outro mais apropriado e mais saboroso que a cajuína.