Lembram como era no tempo dos orelhões? Você tirava o telefone do gancho, esperava o sinal, colocava a ficha telefônica (uma moeda metálica) e discava. Cada ficha, 3 minutos de conversa. Se a ligação fosse interurbana, 20 segundos. Quando a ligação era completada, a ficha caía dentro do aparelho, e ouvia-se o barulho da queda. Daí surgiu a expressão “caiu a ficha”. As conversas precisavam ser rápidas – e sempre sob o temor de que, a qualquer momento, acabasse o tempo de uso e a ligação fosse interrompida. Depois, as fichas foram substituídas por cartões telefônicos. E ainda havia a opção da ligação a cobrar – que não precisava de ficha nem cartão. Com a expansão da telefonia e a chegada dos celulares (em 1990), teve início a decadência dos orelhões.
No seu período de auge, os orelhões chegaram a 1,5 milhão de unidades no país. Hoje existem cerca de 33 mil em funcionamento (e 5 mil inativos), quase todos em municípios do interior. Mas a grande maioria deles vai desaparecer nos próximos meses, informou a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações). Sobrarão 9 mil, instalados em municípios onde não há cobertura de telefonia móvel 4G. Mas estes também estão com os dias contados: 31 de dezembro de 2028, prazo que a Anatel estipulou para que o serviço de telefone chegue nas regiões mais isoladas.
A medida é resultado do encerramento das concessões do serviço de telefonia fixa das cinco empresas responsáveis por eles, em dezembro de 2025. O fim das concessões marca a transição definitiva para as redes móveis.
NORDESTE
Dois estados do Nordeste estão entre os três com maior número de orelhões ativos no Brasil, hoje:
1º São Paulo: 27.918
2º Bahia: 965
3º Maranhão: 653
Os cinco no topo da lista do Nordeste, depois da Bahia e do Maranhão, são Piauí (481), Ceará (465) e Pernambuco (233).
COMO TUDO COMEÇOU

Os orelhões (ou telefones públicos, na linguagem oficial) foram lançados no Brasil em 1972. O design foi de autoria da arquiteta Chu Ming Silveira, chinesa radicada no Brasil, falecida em 1997. O formato oval dava privacidade, protegia do sol, “abafava” o ruído externo e melhorava a acústica. Tornou-se um sucesso internacional, a ponto de outros países replicá-lo.
“Eu lembro se sentir orgulho dela, porque ela tinha projetado algo que estava em todo lugar nas ruas, como as cabines de telefone em Londres, que se tornaram um símbolo do país, o mesmo aconteceu no Brasil com os orelhões”, disse o filho da arquiteta, Alan Chu, em entrevista ao podcast Witness History, da BBC World Service. “E é muito interessante porque normalmente a gente importa esse tipo de coisa, as ideias, os designs. Mas o orelhão é uma criação nacional, é uma invenção brasileira. É o símbolo da nossa criatividade e design”, completou ele, que também é arquiteto e mora em Brasília.
O orelhão incorporou-se à paisagem urbana brasileira – e acaba de ser destaque no filme “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça. Transformou-se em uma das marcas da produção, com a cena em que Wagner Moura aparece usando o aparelho.



