Política e economia de Pernambuco e do Nordeste

Política e economia de Pernambuco e do Nordeste

Uma das peças de Edson Atikum, da coleção Mukitas: esculturas em barro cru que resgatam a ancestralidade Atikum e a tradição das carrancas (Foto: Divulgação)

Entre o pó, a lama e a cerâmica: 3ª Bienal do Barro confronta estigmas do Nordeste e transforma Caruaru em polo da arte contemporânea 

Anote aí na agenda para não deixar de visitar: Caruaru volta a sediar, a partir desta terça-feira (3), a Bienal do Barro do Brasil, com abertura às 17h. Em sua terceira edição, o evento apresenta a exposição “Escassez e abundância: rotas de fuga”, reunião de obras de dez artistas brasileiros e portugueses que propõe uma reflexão sobre a cerâmica e o barro enquanto território, memória, identidade e força de transformação. A programação segue até 28 de novembro, no antigo galpão da Fábrica Caroá (integrado ao Armazém da Criatividade), com entrada gratuita.

A produção artística local ganha lugar de honra nesta edição, com trabalhos de Ratinho, Terezinha Gonzaga e Tavares da Gaita (1925-2009). Nascido em Taquaritinga do Norte e radicado em Caruaru, Tavares terá obras inéditas apresentadas na cidade. A presença pernambucana reúne ainda Adones Valença (Belo Jardim) e Edson Atikum (Carnaubeira da Penha). Completam o elenco Beatriz Albuquerque (Porto, Portugal), Isabela Prado (Belo Horizonte), Anna Bella Geiger (Rio de Janeiro), Amanda Nunes (Ceilândia-DF) e Toni Graton (Curitiba).

CURADORIA

Com curadoria e coordenação geral de Carlos Mélo, a Bienal toma o barro como ponto de partida para discutir território, memória, desigualdade e reparação. A proposta desafia as representações históricas do Nordeste associadas à seca, à pobreza e ao atraso, ao mesmo tempo em que amplia o conceito de escassez para denunciar a falta de políticas públicas e oportunidades de circulação para artistas fora dos grandes centros. Em contraponto, celebra a abundância criativa do interior pernambucano e a vitalidade dos seus saberes tradicionais.

A exposição é organizada em três estados da matéria — pó, lama e cerâmica —, relacionando-os às estruturas coloniais, à memória e às formas de resistência coletiva. “Esta Bienal assume-se como um espelho de sobrevivência. É uma plataforma de fricção que denuncia o trauma da plantation — a estrutura colonial que cercou a terra, monopolizou a água e mercantilizou os corpos — enquanto celebra a insistência poética daqueles que reinventam a vida nos contra-espaços”, pontua Carlos Mélo.

TERRITÓRIO E MEMÓRIA

A edição também marca o resgate de um patrimônio histórico da capital do Agreste: o antigo galpão da Fábrica Caroá. Construído originalmente para a /produção de cordas e doado ao município, o espaço chegou a funcionar como estacionamento antes de ser restaurado para abrigar o pavilhão do Armazém da Criatividade. A ocupação pela Bienal reafirma sua vocação cultural e fortalece a descentralização da arte contemporânea.

Entre os destaques do acervo, a pioneira Anna Bella Geiger transforma o ato de comer em manifesto na obra “O Pão Nosso de Cada Dia”, em que mordidas em uma fatia de pão desenham o mapa do Brasil. Edson Atikum apresenta as Mukitas, esculturas em barro cru que resgatam a ancestralidade Atikum e a tradição das carrancas. Já as jarras de Terezinha Gonzaga evocam o diálogo direto entre terra, fogo, água e o ofício artesanal.

ABRE ÀS 17H

A solenidade de abertura, às 17h desta terça-feira, terá apresentação da exposição, fala do curador e visita guiada. Às 19h, a artista portuguesa Beatriz Albuquerque realiza a performance “A crise na fortuna”.

No sábado (7), às 17h, Anna Bella Geiger apresenta a performance “O Pão Nosso de Cada Dia” no auditório do Armazém da Criatividade. Às 19h do mesmo dia, a artista inaugura a exposição “Burocracia”, na Galeria Boi, localizada no Alto do Moura. O primeiro final de semana inclui ainda a Mostra Terra PE, realizada de 6 a 8 de novembro.

Serviço

  • Evento: 3ª Bienal do Barro do Brasil — Exposição “Escassez e abundância: rotas de fuga”
  • Período: 3 a 28 de novembro de 2026
  • Visitação: Terça a sexta-feira, das 9h às 17h; sábados e domingos, das 10h às 19h
  • Local: Antigo galpão da Fábrica Caroá / Armazém da Criatividade — Caruaru-PE
  • Entrada: Gratuita
  • Realização: Jaraguá Produções
  • Apoio: Galeria Boi, Feira Terra PE, Porto Digital – Armazém da Criatividade, Fundação de Cultura de Caruaru e Prefeitura Municipal de Caruaru
  • Incentivo: Funcultura, Fundarpe e Governo do Estado de Pernambuco

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Foto de Vandeck Santiago
Vandeck Santiago
Jornalista e escritor