Política e economia de Pernambuco e do Nordeste

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Confusão em Balneário Camboriú (Reprodução)

A agressão a turistas em Porto de Galinhas virou notícia nacional; a de Balneário Camboriú, não. Por quê?

A agressão covarde contra dois turistas mato-grossenses em Porto de Galinhas (PE) teve repercussão nacional na TV e nos portais, que acompanharam cada detalhe do caso. Mas por que o mesmo não aconteceu com a violência, igualmente brutal, contra um turista argentino em Balneário Camboriú (SC), na última terça-feira (30/12)? Ele foi reclamar de valores que julgou indevidos e a confusão começou. Recebeu golpes de cabo de vassoura e sofreu uma “voadora” pelas costas. 

Ambos os casos tiveram vídeos virais. Ambos ocorreram em praias famosas e lotadas, no auge da temporada. 

Então, qual a diferença? 

Será que é problema de CEP?… 

Acredito que não, mas vejam uma coisa curiosa: os dois turistas agredidos em Porto de Galinhas, Johnny Andrade e Cleiton Zanatta, passaram o Réveillon exatamente em Balneário Camboriú, com tudo pago, convidados pelo setor hoteleiro e de bares e restaurantes do município, com apoio da prefeita Juliana Pavan (PSD). Essa notícia saiu no G1/GloboNews. A da agressão em praia da cidade, não. 

Será que algo negativo numa praia famosa do Nordeste atrai mais holofotes do que algo semelhante ocorrido numa praia igualmente famosa do Sul?…

Também acredito que não. 

Suponho que seja mera coincidência.

Mas que o caso do ataque ao argentino Balneário Camboriú tem todos os ingredientes para virar notícia nacional, isso tem. 

Vejamos os ingredientes: o vídeo viral; o fato de a agressão ter ocorrido poucos dias após a de Porto de Galinhas; o dado de estarmos na alta temporada e as praias de todo o país estarem cheias de turistas.

E mais este outro, que simbolicamente une Balneário Camboriú e Porto de Galinhas: o fato de os dois turistas atacados em Porto estarem neste momento no município catarinense, para aonde viajaram atendendo a um convite apoiado pela Prefeitura e promovido por entidades do ramo de hotéis e de bares e restaurantes.

E, para finalizar, tem este aqui, que “nacionaliza” de vez a questão: Neste final de ano o Brasil comemorou um recorde histórico na chegada de turistas internacionais em 2025. Foram 9 milhões. O país que mais envia turistas para o Brasil é a Argentina. Dos 9 milhões do recorde, 3,1 milhões foram argentinos – como o cidadão que apanhou na praia de Balneário Camboriú. Acrescente-se que o estado mais visitado por eles é Santa Catarina. 

Nada disso foi suficiente para atrair a cobertura nacional para a agressão em Balneário Camboriú. Como o caso terminou? Quem são as pessoas envolvidas? Houve desdobramento policial? Cadê o posicionamento das autoridades? O silêncio da imprensa nacional impediu que o país cobrasse essas respostas (ao contrário do que ocorreu em Porto, quando até a governadora Raquel Lyra (PSD) foi instada a se posicionar). 

COMO FOI CONFUSÃO EM BALNEÁRIO CAMBORIÚ

Um turista argentino discutiu com vendedores de uma barraca após suposta cobrança de R$ 150 por um milho. A família responsável pela barraca disse que a proprietária foi agredida primeiro, e que a cobrança foi de R$ 30.

Um vídeo com parte da confusão foi divulgado por veículos locais. Não há maiores detalhes sobre o caso nem sobre quem gravou a cena. Tampouco há posicionamento de autoridades do estado e da prefeitura. 

Uma moça que se identificou como filha da mulher que aparece no vídeo, escreveu em uma postagem um relato do que, segundo ela, teria ocorrido:

“Olá, gente, sou a filha da mulher que está no meio da briga. Só quero esclarecer algumas coisas. O argentino veio pra cima de mim me acusando de roubo em uma compra que ele fez de 150 reais. Eu me assustei quando ele veio cobrar, porque ele entrou dentro do meu quiosque de milho e churros e me acusou de ladra. Então, falei pra ele conversar com minha mãe, pois ela tem o aplicativo no celular. Porém, ele foi xingando ela e deu um tapa na minha mãe. Ela se abaixou, mas mesmo assim, ele acertou a cabeça dela. Quando isso aconteceu, o meu padrasto, o funcionário e o sobrinho dele partiram pra cima dele, e a minha mãe também. Foi isso que aconteceu. Não defendam quando vocês não sabem o outro lado da história também. Ele depois tentou conversar com a gente, mas não deu em nada, até porque não sei o que ele comprou de 150 reais, sendo que só cobramos 30 reais e temos provas disso. A gente não é ladrão, só nos defendemos.”

ATUALIZAÇÃO (Sexta-feira, 02/01/26)

A Prefeitura de Balneário Camboriú notificou o quiosque Ponto de Milho 69, onde ocorreu a confusão. A notificação ocorreu na noite de quinta-feira (1º/01/26). O estabelecimento tem 48 horas para apresentar defesa. 

Além disso, a Prefeitura abriu um processo administrativo para apurar as agressões, que pode resultar até na revogação da permissão das atividades do estabelecimento, segundo o procurador-geral municipal Diego Montibeler. “Ao final da instrução do processo administrativo, caso ocorra eventual confirmação da prática de atos incompatíveis com a ordem pública e/ou de irregularidade no exercício da atividade no equipamento público cujo uso foi permitido, poderá resultar na revogação da permissão de uso”, informou ele. 

Confira a íntegra do informe da Prefeitura de Balneário Camboriú sobre o caso:

“A Prefeitura de Balneário Camboriú notificou no início da noite desta quinta-feira, 1º, o Ponto de Milho 69, que opera na Praia Central. A medida foi motivada após colaboradores do referido ponto terem se envolvido em um episódio de agressão com um turista argentino, durante a manhã de quarta-feira, 31. As agressões teriam ocorrido após divergências em uma cobrança.

Agora, o responsável pelo ponto tem até 48 horas para sua manifestação, apresentando sua defesa à prefeitura. Em paralelo à notificação, também foi determinada a abertura de um processo administrativo para apuração das responsabilidades.

“A notificação tem como objetivo garantir o devido processo legal e esclarecer os fatos ocorridos, assegurando o direito de defesa ao responsável pelo estabelecimento. Importante frisar que a administração municipal não compactua com qualquer tipo de violência ou conduta inadequada, especialmente em espaços públicos, e irá apurar rigorosamente as responsabilidades. Ao final da instrução do processo administrativo, caso ocorra eventual confirmação da prática de atos incompatíveis com a ordem pública e/ou de irregularidade no exercício da atividade no equipamento público cujo uso foi permitido, poderá resultar na revogação da permissão de uso, sem prejuízo de outras sanções administrativas previstas em lei”, pontua o procurador-geral do Município, Diego Montibeler.

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Vandeck Santiago é jornalista e escritor. Trabalhou na VEJA, Folha de S. Paulo e Diario de Pernambuco. Venceu 15 prêmios jornalísticos, entre os quais o Prêmio Esso, o Prêmio Embratel e o Prêmio BNB. É autor de “Pernambuco em chamas – A intervenção dos EUA e o golpe de 1964” (CEPE, 2016) e de “Josué de Castro – o gênio silenciado” (Instituto Maximiano Campos, 2008).