Uma análise mais ou menos geral na mídia é de que o presidente Lula se saiu bem na entrevista à TV Globo, nesta quinta (15), com um percalço ressaltado por todos (o de que não sabia que o Bolsa Família não havia sido reajustado) e a adesão a uma pauta popular (defesa da redução da maioridade penal).
Mas há um abismo entre a percepção do público em geral e a dos jornalistas e analistas. Podem até coincidir, mas no geral – quem já acompanhou sessões de pesquisa qualitativa sabe disso muito bem – as discrepâncias às vezes são profundas.
O olhar do analista julga forma, eficiência e conhecimento. O do público em geral avalia se o candidato parece confiável, se demonstra segurança e respeito, se fala da vida real (inflação, emprego, segurança) de forma inteligível, e se aparenta estar “do seu lado”. Para o cidadão, uma hesitação ou fala fora do padrão técnico pode não ser um erro, mas um traço de humanidade e autenticidade.
Um tropeço verbal ou um detalhe técnico ignorado pelo candidato pode virar a manchete do analista por três dias, enquanto para o eleitor comum é um ruído irrelevante que nem sequer fixa na memória.
Outro ponto importante é que os analistas assistem a entrevista do começo ao fim, não importa o horário da transmissão. E assistem anotando, confrontando com os 150 quilos de informações prévias que possuem.
Para o grande público, o consumo é fragmentado. Via corte de redes sociais, conversas de WhatsApp, trechos no rádio e nos podcasts. E é pouco provável (para quem não está numa bolha ou noutra) que sua opinião se consolide rapidamente. Não raro, essa percepção só ganha forma no caminho até a urna.
No caso da entrevista na Globo, concedida à jornalista Renata Lo Prete, a oposição deve aproveitar ao máximo a informação do Lula de que não sabia que o Bolsa Família não havia sido reajustado em seu governo (o reajuste só foi dado 17 dias antes da eleição do primeiro turno). Já os aliados devem divulgar na mesma proporção a fala do presidente no tom de “para o povo, segurança e proteção; para os bandidos, prisão”.
Sobre o placar da entrevista, Lula pode ter vencido de goleada. Ou perdido. Ou o jogo ter sido 1 x 1. Os resultados de entrevistas e debates em rede nacional de TV (sobretudo Globo), em reta final de campanha, são uma incógnita.
Duvido que “desconvertam os convertidos”.
Mas podem “acordar os adormecidos” e “convencer os ainda não convencidos” – que são exatamente aqueles que costumam ser decisivos em eleições acirradas.



