Em carta aberta escrita em tom respeitoso e afetuoso, embora contundente em alguns momentos, amigos de Raquel Lyra da Turma de 2000 da Faculdade de Direito do Recife defendem a candidatura de Lula (PT), criticam a neutralidade da governadora no 2º turno e apelam para o seu compromisso com a democracia, a história e as futuras gerações. Reeleita no primeiro turno, Raquel declarou que se manterá neutra tanto em relação ao candidato petista quanto a Flávio Bolsonaro (PL) como forma de preservar sua coerência política.
Subscrito por 18 colegas de turma, o documento questiona a postura da governadora diante do cenário político nacional:
“Há momentos em que o silêncio parece prudência. Em que a distância parece equilíbrio. Em que a neutralidade parece oferecer abrigo contra os conflitos do presente. Mas a experiência histórica nos ensina que a democracia precisa de cidadãos dispostos a defendê-la, inclusive quando essa defesa exige coragem, exposição e disposição para enfrentar incompreensões.”

Avançando sobre a efemeridade do poder e o peso histórico da omissão, a carta traz uma das suas passagens mais contundentes:
“Os mandatos terminam. Os governos passam. As vitórias eleitorais se tornam páginas dos livros de história. Mas há algo que nenhuma passagem do tempo consegue apagar: a memória das nossas escolhas e a responsabilidade que assumimos por elas. E quando a história perguntar onde estávamos, queremos responder: Estávamos de pé. De consciência tranquila. Fiéis à democracia. Fiéis à justiça. Fiéis à nossa história. Porque tudo passa, Raquel. Tudo. Menos aquilo que fizemos de nós mesmos.”
Ao lembrar o juramento feito na colação de grau, o grupo argumenta que a salvaguarda da ordem constitucional sobrepõe-se a conveniências conjunturais. Segundo o texto, o respeito às instituições republicanas e à dignidade humana compõe um patrimônio coletivo que “não pertence a um partido, a um governo ou a uma candidatura”:
“Nenhum direito está definitivamente protegido contra retrocessos. Por isso, para nós, a defesa da ordem democrática jamais poderá ser uma questão secundária. O juramento que fizemos ao escolher o Direito não se esgota no exercício da profissão. Ele nos acompanha pela vida inteira. Não estudamos a liberdade para sermos indiferentes à sua defesa. Não aprendemos a justiça para aceitar a desigualdade como destino.”
Na parte final, o texto assume um tom ainda mais íntimo, recorrendo ao papel de Raquel como mãe e à herança para as futuras gerações:
“Raquel, há uma dimensão da vida pública que nenhum cargo, nenhuma vitória eleitoral e nenhuma conquista pessoal consegue superar: a responsabilidade que temos diante das gerações que virão. A vida te confiou responsabilidades imensas. Algumas vieram das urnas, outras nasceram do amor. Entre todas, talvez nenhuma seja tão profunda quanto a de acompanhar teus filhos na construção de seus próprios caminhos.
Eles ainda têm uma vida inteira pela frente. Que Brasil encontrarão quando forem adultos? Que sociedade os receberá? Que lugar terão nela a liberdade, a justiça, a tolerância e o respeito à dignidade humana?”
A carta abre com a saudação “À nossa querida amiga Raquel Lyra” e encerra com “Teus amigos da Faculdade de Direito do Recife — Turma de 2000”.
CONFIRA A ÍNTEGRA DA CARTA:
CARTA DOS AMIGOS DA FACULDADE DE DIREITO DO RECIFE TURMA DE 2000 (Trechos em negrito do original)
À nossa querida amiga Raquel Lyra.
Há amizades que nascem das circunstâncias. Outras nascem dos sonhos. A nossa nasceu nos corredores da velha Faculdade de Direito do Recife, onde, ainda jovens, aprendemos que o Direito não é apenas uma profissão, mas, sobretudo, um compromisso com a justiça, a liberdade e a dignidade humana.
É dessa história compartilhada que nasce esta carta.
Escrevemos como amigos, como pernambucanos, como juristas e, acima de tudo, como pessoas que continuam acreditando nos ideais que nos aproximaram há mais de duas décadas.
Naquelas salas de aula, sob o peso de quase dois séculos de história, aprendemos que a Faculdade de Direito do Recife não foi apenas uma escola de leis. Foi um berço de ideias, de inconformismo, de pensamento libertário e republicano. Uma instituição que ajudou a formar a consciência jurídica e política do Brasil e que nos ensinou que o conhecimento só encontra sua verdadeira grandeza quando colocado a serviço da sociedade.
Foi ali que compreendemos que a democracia não se resume ao exercício periódico do voto. Ela exige vigilância, coragem, responsabilidade e compromisso permanente com os direitos fundamentais.
A democracia não se herda pronta. Cada geração recebe a responsabilidade de preservá-la e aperfeiçoá-la.
Raquel, acompanhamos com carinho e respeito tua trajetória. Da atuação como delegada da Polícia Federal à experiência como procuradora do Estado, deputada estadual, prefeita de Caruaru e governadora de Pernambuco, tua vida pública foi construída em diferentes espaços de responsabilidade institucional.
Conhecemos também a importância da tradição política da família Lyra para Pernambuco. Uma história de participação na vida pública, de exercício de responsabilidades de governo e de contribuição para a construção do nosso Estado. Esse legado pertence à memória política pernambucana e merece ser reconhecido.
Recebemos tua reeleição com a alegria de quem vê uma amiga conquistar novamente a confiança dos pernambucanos. Mas também com a consciência de que o exercício do poder, sobretudo em momentos históricos decisivos, traz responsabilidades que ultrapassam os limites de qualquer mandato.
Nós, que compartilhamos a formação jurídica, sabemos que existem valores que não podem ser reduzidos às circunstâncias eleitorais. O respeito à Constituição, à soberania popular, às instituições republicanas e à dignidade humana não pertence a um partido, a um governo ou a uma candidatura. Constitui o patrimônio comum de uma sociedade democrática.
E sabemos, igualmente, que a história nem sempre exige de nós escolhas confortáveis.
Há momentos em que o silêncio parece prudência. Em que a distância parece equilíbrio. Em que a neutralidade parece oferecer abrigo contra os conflitos do presente.
Mas a experiência histórica nos ensina que a democracia precisa de cidadãos dispostos a defendêla, inclusive quando essa defesa exige coragem, exposição e disposição para enfrentar incompreensões.
Não escrevemos estas palavras de um lugar de superioridade moral. Também nós conhecemos as contradições, os receios e as dificuldades que acompanham as escolhas humanas. Escrevemos porque acreditamos que a amizade verdadeira comporta a franqueza, a divergência respeitosa e, sobretudo, a partilha de convicções profundas.
Nossa geração conheceu a esperança de um Brasil que buscava superar seu passado autoritário. Vimos a Constituição de 1988 consolidar-se como referência de liberdade e cidadania. Testemunhamos avanços sociais importantes, mas também aprendemos que nenhum direito está definitivamente protegido contra retrocessos.
Por isso, para nós, a defesa da ordem democrática jamais poderá ser uma questão secundária.
O juramento que fizemos ao escolher o Direito não se esgota no exercício da profissão. Ele nos acompanha pela vida inteira.
A advocacia, a magistratura, o Ministério Público, a procuratura e o exercício de funções públicas são expressões diferentes de uma responsabilidade comum: preservar as condições que tornam possível uma sociedade livre, plural e justa.
Essa responsabilidade nos une, independentemente das escolhas partidárias de cada um.
É também por isso que manifestamos, com serenidade e convicção, nossa posição neste segundo turno presidencial. Nosso apoio ao presidente Lula decorre de nossa própria compreensão sobre os caminhos políticos e sociais que desejamos para o Brasil. É uma escolha que assumimos publicamente, à luz dos valores que orientam nossa atuação como cidadãos.
Sabemos que a democracia também pressupõe o respeito às decisões individuais, à autonomia de consciência e à pluralidade de posições. Nenhuma amizade deve depender de concordância política, assim como nenhuma divergência eleitoral deve apagar uma história de afeto e respeito.
Mas isso não diminui a importância de afirmarmos aquilo em que acreditamos.
Raquel, há uma dimensão da vida pública que nenhum cargo, nenhuma vitória eleitoral e nenhuma conquista pessoal consegue superar: a responsabilidade que temos diante das gerações que virão.
A vida te confiou responsabilidades imensas. Algumas vieram das urnas, outras nasceram do amor. Entre todas, talvez nenhuma seja tão profunda quanto a de acompanhar teus filhos na construção de seus próprios caminhos.
Eles ainda têm uma vida inteira pela frente. Que Brasil encontrarão quando forem adultos? Que sociedade os receberá? Que lugar terão nela a liberdade, a justiça, a tolerância e o respeito à dignidade humana?
São perguntas que todos nós, pais e mães, fazemos quando pensamos no futuro.
Sabemos, também, que a ausência de Fernando torna essa caminhada especialmente exigente. Há sonhos, lembranças e projetos de família que permanecem vivos mesmo quando já não podemos compartilhá-los com quem amamos. E sabemos quanto carinho, força e dedicação existem na tarefa de preservar essa história e acompanhar o crescimento dos filhos.
Talvez seja essa uma das dimensões mais profundas da responsabilidade que compartilhamos: compreender que o futuro pelo qual trabalhamos não será vivido apenas por nós, mas sobretudo por aqueles que virão depois.
Porque a maior herança que podemos deixar aos nossos filhos não está nos bens que acumulamos, nos cargos que ocupamos ou nas vitórias que conquistamos. Está no país que ajudamos a construir e nos valores que lhes ensinamos a preservar.
Na Faculdade de Direito do Recife, aprendemos que a democracia exige mais do que discursos solenes. Exige compromisso cotidiano, coragem cívica e fidelidade aos princípios constitucionais.
Não queremos que o tempo transforme em lembranças distantes os ideais que um dia nos fizeram acreditar na capacidade transformadora do Direito.
Não estudamos a liberdade para sermos indiferentes à sua defesa. Não aprendemos a justiça para aceitar a desigualdade como destino. Não juramos respeito à Constituição para tratar seus valores como palavras vazias.
E não queremos que a história da nossa geração seja a história de uma esperança abandonada.
Porque chegará o dia em que já não estaremos ocupando cargos, exercendo funções ou participando das disputas do nosso tempo. Restará apenas aquilo que fizemos com as oportunidades que a vida nos ofereceu.
Nesse dia, queremos olhar para trás sem arrependimento.
Queremos poder dizer que a juventude passou, mas a coragem permaneceu. Que os cabelos embranqueceram, mas a consciência não envelheceu. Que a vida nos ensinou a prudência, mas jamais nos convenceu a renunciar aos nossos princípios.
Que fomos dignos da Faculdade que nos formou. Dignos da Constituição que juramos defender. Dignos dos filhos que educamos. E dignos da história que ajudamos a escrever.
Pois a Faculdade de Direito do Recife não nos ensinou apenas a interpretar leis. Ensinou-nos a compreender que o Direito deve servir à liberdade, que a República exige responsabilidade e que a dignidade humana não admite indiferença.
Que essa herança permaneça viva em cada um de nós.
Os mandatos terminam. Os governos passam. As vitórias eleitorais se tornam páginas dos livros de história. Mas há algo que nenhuma passagem do tempo consegue apagar: a memória das nossas escolhas e a responsabilidade que assumimos por elas.
E quando a história perguntar onde estávamos, queremos responder:
Estávamos de pé. De consciência tranquila. Fiéis à democracia. Fiéis à justiça. Fiéis à nossa história.
Porque tudo passa, Raquel. Tudo. Menos aquilo que fizemos de nós mesmos.
Com afeto, respeito e esperança, Teus amigos da Faculdade de Direito do Recife — Turma de 2000.
Recife, outubro de 2026.
ALEX GALDINO DA SILVA
ALINE VELOSO DOS PASSOS
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