Sintomático que, no primeiro ato de campanha após o primeiro turno, o presidente Lula tenha feito questão de enfatizar que agora participará dos debates. “Agora sim, agora é importante ter debate na televisão porque agora é tête-à-tête. Agora é um contra um”, disse ele, durante a reunião de coordenação de sua campanha, em Brasília, nesta segunda-feira (5).
A repercussão por ele decidir não ir ao debate da Globo, no dia 1º, teve alguma influência na votação do primeiro turno? Talvez, mesmo o debate sequer tendo acontecido. Por estes motivos:
Tempo de exposição: O episódio ocorreu a apenas três dias da eleição, período em que a atenção da população para a disputa atinge o auge;
O risco de movimentos bruscos às vésperas da votação: Podemos discutir se a ausência em um debate cancelado tem força para alterar votos consolidados, mas a regra do jogo é clara: às vésperas do voto, evite movimentos bruscos, pois o efeito sobre o eleitorado pode ser imprevisível;
Peso do evento: O debate da Globo é um ritual tradicional das eleições brasileiras — “o último antes da votação” —, transmitido em horário nobre pela maior emissora do país e aguardado com enorme expectativa por parcela significativa do eleitorado;
O ruído gerado: O debate não ocorreu, é fato. Mas a ausência anunciada do presidente, as disputas judiciais e o consequente cancelamento geraram ruidosa cobertura midiática e repercussão no meio digital. A ponto de se configurar um “movimento brusco”?…
Há paralelo histórico com fato idêntico recente?
Há, sim. Ocorreu em 2006. Lula não foi ao último debate. Estava com vantagem folgada, falava-se até em vitória no primeiro turno, na disputa com Geraldo Alckmin (então no PSDB). Deu segundo turno. A má repercussão pela ausência foi apontada por alguns nomes do seu palanque como decisiva para que isso acontecesse.
“O ideal é que ele tivesse ido. Eu fui voto vencido”, disse o vice José Alencar. “Não há outro brasileiro que tenha maior experiência em debate. Se o Lula tivesse ido, teria vencido”.
O então governador do Piauí e atual ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, analisou, na época: “Acho que foram cometidos alguns erros nesta reta final da campanha que obrigatoriamente não temos o direito de repetir, como não ir ao debate após ter marcado”.
A estratégia de ausência também foi criticada por outros caciques petistas à época, como Fernando Pimentel (então prefeito de Belo Horizonte), Delcídio do Amaral (então senador por MS) e Zeca do PT (então governador de MS), conforme registrou o jornalista Fábio Zanini, na Folha de S.Paulo.



