Política e economia de Pernambuco e do Nordeste

Política e economia de Pernambuco e do Nordeste

Raquel Lyra, em vídeo: "Peço desculpas. Foi uma fala equivocada" (Reprodução)

A duas semanas da eleição, o risco das consequências na pauta com maior potencial de desgaste para Raquel 

Este episódio da laqueadura tem todos os ingredientes para tornar-se a pauta negativa mais complexa a atravessar o caminho de Raquel Lyra (PSD) ao longo do seu mandato.

O caso possui algo que nenhum dos outros teve: Raquel admite que errou. Nas crises anteriores, a narrativa dividia-se entre a tese da denúncia e a versão do governo. Agora, não. A própria governadora reconhece o erro. O debate, portanto, passa a ser travado sobre um fato incontroverso.

Outro ponto é a simplicidade da história, compreendida facilmente por qualquer pessoa. Trata-se de uma fala sobre esterilizar uma mulher com muitos filhos, sem o seu consentimento. Tudo exposto em um vídeo de apenas 13 segundos. A narrativa se abre e se fecha de forma direta, sem a necessidade de malabarismos retóricos.

Considere-se ainda o pilar simbólico em que Raquel se assenta: primeira mulher a comandar Pernambuco, ela tem na defesa dos direitos das mulheres um dos ativos centrais de sua imagem pública.

Avançando mais, a declaração ultrapassa a esfera da simples insensibilidade verbal. Ao sugerir um procedimento definitivo sem autorização consciente, a fala esbarra nos limites éticos e na Lei do Planejamento Familiar, que tipifica a prática como crime.

Por fim, mas não menos importante, o episódio ocorre a duas semanas da eleição. Fato que dispensa comentários.

Pergunta-se: A reação a essa pauta pode escalar, sobretudo no eleitorado feminino? A ênfase que a oposição certamente dará ao tema vai conseguir fazer com que ele chegue ao coração dos indecisos? Ou a polarização fará com que o caso seja sublimado pelos eleitores de uma forma geral? Ninguém sabe.

Mas o “não saber’ é terreno movediço. Como dizia aquele sábio personagem hoje fora de moda, o ruim das consequências é que elas vêm sempre depois…

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Vandeck Santiago é jornalista e escritor. Trabalhou na VEJA, Folha de S. Paulo e Diario de Pernambuco. Venceu 15 prêmios jornalísticos, entre os quais o Prêmio Esso, o Prêmio Embratel e o Prêmio BNB. É autor de “Pernambuco em chamas – A intervenção dos EUA e o golpe de 1964” (CEPE, 2016) e de “Josué de Castro – o gênio silenciado” (Instituto Maximiano Campos, 2008).