Este episódio da laqueadura tem todos os ingredientes para tornar-se a pauta negativa mais complexa a atravessar o caminho de Raquel Lyra (PSD) ao longo do seu mandato.
O caso possui algo que nenhum dos outros teve: Raquel admite que errou. Nas crises anteriores, a narrativa dividia-se entre a tese da denúncia e a versão do governo. Agora, não. A própria governadora reconhece o erro. O debate, portanto, passa a ser travado sobre um fato incontroverso.
Outro ponto é a simplicidade da história, compreendida facilmente por qualquer pessoa. Trata-se de uma fala sobre esterilizar uma mulher com muitos filhos, sem o seu consentimento. Tudo exposto em um vídeo de apenas 13 segundos. A narrativa se abre e se fecha de forma direta, sem a necessidade de malabarismos retóricos.
Considere-se ainda o pilar simbólico em que Raquel se assenta: primeira mulher a comandar Pernambuco, ela tem na defesa dos direitos das mulheres um dos ativos centrais de sua imagem pública.
Avançando mais, a declaração ultrapassa a esfera da simples insensibilidade verbal. Ao sugerir um procedimento definitivo sem autorização consciente, a fala esbarra nos limites éticos e na Lei do Planejamento Familiar, que tipifica a prática como crime.
Por fim, mas não menos importante, o episódio ocorre a duas semanas da eleição. Fato que dispensa comentários.
Pergunta-se: A reação a essa pauta pode escalar, sobretudo no eleitorado feminino? A ênfase que a oposição certamente dará ao tema vai conseguir fazer com que ele chegue ao coração dos indecisos? Ou a polarização fará com que o caso seja sublimado pelos eleitores de uma forma geral? Ninguém sabe.
Mas o “não saber’ é terreno movediço. Como dizia aquele sábio personagem hoje fora de moda, o ruim das consequências é que elas vêm sempre depois…



