O tabuleiro está montado, mas falta o elemento feminino para equilibrar o jogo.
Há muitos nomes cogitados para compor a chapa majoritária de João Campos (PSB), mas falta uma mulher, a Rainha, e a única vaga que resta, agora, é a de vice.
Raciocinem comigo: vocês acham que faz sentido uma chapa majoritária formada só por homens para enfrentar uma mulher, e uma mulher que costuma apresentar-se como a primeira governadora eleita de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD)?…
Imaginem que Priscila Krause (PSD) seja mantida como vice; seriam, então, duas mulheres contra quatro homens.
Percebem o simbolismo visual disso? Percebem o terreno movediço de uma disputa com esse contorno?
E convém salientar ainda que, na eleição passada, Pernambuco elegeu também a primeira mulher para o Senado, Teresa Leitão (PT). Além disso, todos os sete candidatos homens na disputa tiveram na vice uma mulher. Vale a pena estar atento a esses detalhes de mudança na sociedade brasileira.
Alguém pode dizer: “Mas tem Marília Arraes como pré-candidata ao Senado”.
Marília tem pelo menos três obstáculos pela frente e um deles me parece intransponível.
O primeiro é que ela vem de duas eleições majoritárias consecutivas, e o entendimento nos bastidores, mesmo que não explicitado publicamente, é que é hora de dar a vez a outros. A política tem fila, e a ordem, sempre que possível, é seguida.
O segundo obstáculo é que ela vai concorrer numa faixa onde já existe a candidatura de Humberto Costa.
O terceiro obstáculo, e esse é o que eu julgo intransponível, é que uma chapa majoritária com dois nomes ligados por laços familiares, com um legado familiar e histórico semelhante, enfraquece o palanque, em vez de fortalecê-lo.
Isso não tem nada a ver com as qualidades de Marília, que são muitas, é um importante quadro da política pernambucana, mas as condições objetivas do momento não lhe favorecem para fazer parte desta chapa majoritária.
Para o Senado, Humberto Costa e Silvio Costa Filho preenchem todos os requisitos para serem os candidatos de Lula. Humberto, um nome histórico do PT, correndo pela esquerda, e Silvio Costa Filho, um ministro que é elogiado dia sim dia não por Lula, corre pelo centro, com fôlego para incursões à direita.
Em uma eventual reeleição, Lula vai precisar de um Senado que lhe garanta governabilidade, estabilidade, e que reduza ao máximo possível a dependência do Centrão. Humberto e Silvio se encaixam aí com perfeição: são de absoluta confiança do presidente.
E Miguel Coelho? Olha, Miguel só se for por um palanque que não é este que estamos discutindo aqui. Não há nenhuma certeza de que, se eleito com apoio de Lula, ele votaria a favor das pautas do governo. No Congresso, o irmão dele, Fernando Filho, que é deputado federal, tem votado contra o governo em pautas sensíveis, como a do PL da Dosimetria, que reduz as penas de Bolsonaro e de envolvidos em tentativa de golpe de estado. O fato de votar contra o governo não o desmerece em nada; ele está votando de acordo com o eleitorado dele, que é também o de Miguel.
Miguel Coelho, assim como Marília, é um quadro com capacidade para almejar qualquer cargo em Pernambuco e com potencial para projeção nacional. Marília já tem um Plano B, que é sair para deputada federal. Miguel tem insistido que só quer o Senado – e no caso dele a alternativa para deputado federal é mais complicada, porque implicaria num arranjo familiar que envolve o irmão que é deputado federal, está no quinto mandato, e o outro irmão que é deputado estadual.
Tanto para Miguel quanto para Marília, uma eleição majoritária carrega um risco tremendo: o de, se não ganhar, passar mais quatro anos sem mandato. Ambos têm, em suas linhas de pensamento político, uma contribuição importante a dar à política pernambucana e brasileiras. E revestidos de um mandato eles podem fazer isso de forma mais plena. São dois adultos jovens, mas experientes. E, como pessoas experientes, sabem que a política transita mais pelas dobras da costela do que pelo miolo do filé. Ou seja, é mais osso que carne suculenta. Então, contrariedade aqui e acolá faz parte do jogo.
Nessa conjectura – que, obviamente, não é um fato consumado, é uma suposição -, a vaga real que existe na chapa majoritária de João Campos é a de vice.
Então, a pergunta que fica é: Quem seria uma mulher com capacidade de levar a presença feminina para o palanque de João Campos? Quem pode ser a Rainha no xadrez político do candidato do PSB?



